30, Abr, 2009

quem saberá meu nome, quando tudo ‘sto passar-se?
quem cerrará, por fim, a janela? olhar-me-á uma última vez,
ou fa-lo-á c’mo quem realiza um quotidiano ofício?
por que não haveria d’ ser d'este modo, quotidianamente?
por que haveriam d' chorar-me à partida?
por que gostariam d' saber-me o nome, tendo-me já ido?
sim, ‘screvi algumas linhas, e hei d’escrever outras...
.................................................[c'ntudo, realiza-se algo
e n'isto é todo o valor d'este algo q' se realiza.
se o milagre ‘stá na acção d’ fazerem-se as cousas...
se uma cousa já feita é só a forma d'esta cousa...
se a forma d'uma cousa é tão só um pouco d' vento q',
quando vem-nos ao rosto, já não é mais vento...
.................................................[feitas, minhas linhas
não terão valor algum, forem ou não belas;
tão-somente ficam, se sou afortunado o bastante,
................................................[c'mo o cadáver d'alma sobre a terra.

29, Abr, 2009

fala-m’ele d’ cousas ‘stranhas ao mundo,
q’ por mais qu’um possa concebê-las,
‘inda assim são ‘stranhas ao mundo,
e meu 'spírito 'stremece c'mo um ramo ao vento forte...
‘sforça-se tanto por persuadir-me
qu’às vezes penso q’ tem razão;
olho à janela, sorrateiramente,
n'estas ocasiões, c'mo q' p'ra certificar-me
.................................[d' qu'está tudo bem,
e qu'o mundo é 'sto q' vejo c'os meus olhos,
e nada mais qu'isto q' c'os meus olhos vejo...
ele vem, 'ntretanto, quando o q’ quero é quietude,
deixar-me 'star imperturbável, c'mo uma ânfora quebrada
q' s'esquece d'baixo d'um pinheiro, à meio caminho
................................['ntre a casa e a fonte...
justamente n’estes momentos,
................................[quando ‘stou mais satisfeito,
meditando sobre cousa nenhuma c'mo convém meditar-se,
ele vem, e põe-me à cabeça ‘stas idéias,
................................[c’mo um magnífico chapéu doirado.

28, Abr, 2009

trago n’a cabaça uns frutos d’aucuba...
são dez ou doze raminhos,
e 'sto põe-me ingenuamente satisfeito,
c'mo poucas vezes tenho-me sentido.
ergo-os à fronte, e examino-os - são bons frutos,
............................[e o sol bate ligeiramente n'eles,
conferindo-lhes um leve brilho rosado,
............................[e um aspecto bonito d'ocaso.
parecem 'stes p'quenos frutos cousas tão perenes,
e n'o 'ntanto o tempo é uma cousa q' passa...
'ste é um momento 'stranho.
poder-me-ia dizer vazio d' tudo,
mas tão poderosa é a impressão d' realidade
............................[p'ra qu'assim eu diga,
e 'sta é uma verdade...
poder-me-ia dizer pleno d' tudo, p'lo contrário,
mas sente-se tanto mais a brevidade d' tudo
............................[quanto mais longamente se vive,
e 'sta é outra verdade...

22, Abr, 2009

sim, por vezes, mas só por vezes,
......................................[julgo-me severamente...
minha contumácia n’este ofício obscuro d’escrever,
'nquanto q’ me seria possível d'algum modo
ter parte n'o 'ncargo comum d'estar-se n'o mundo,
figurar social n’outra mais concreta forma,
fazer amor ao invés de conjecturas,
.......................................[fundar um empreendimento,
meter-me na arquitectura imediata d’as cousas,
e ver c’as mãos ao invés d'o 'spírito...
sim, julgo-me, n’estas ocasiões, severamente.
.......................................[‘ste ofício d’escrever...
d' crer absolutamente em tudo q' não há...
ando jovem, 'inda. trago o peito brando,
.......................................[as 'spáduas fortes, e excessivo ímpeto;
n'o 'ntanto, sou 'sto a q' se chama um artista...
um desperdício, c’mo uma bela fêmea com demasiado carácter.

20, Abr, 2009

tenho meu corpo...
(tenho meu corpo...? eu...?
'sta p'quena consciência q' diz, 'eu'...?)
se meu corpo é uma 'ntidade q' trabalha por si...
se meu coração bate sem qu’eu dê por ‘sto,
se respiro d’o mesmo modo,
se ando p’las aléias c’o mesmo princípio...
essencialmente, não faço parte d’ mim.
quando um dispõe d’ nada,
há n’as aspirações d’este toda uma verdade e toda uma sabedoria...
não é o qu’eu quero,
é o q’ quer a terra...
não é minha vontade,
é d’o universo a vontade...
levanto-me p'la manhã e desço a rua
e é qualquer outra cousa q' se levanta e desce a rua,
e sou aquilo q' vem eternamente um passo depois d' mim.

16, Abr, 2009

quando soa o primeiro sino d’a igreja,
ao lado d’ casa, é dia!...
qu'aborrecimento é mais forte qu'isto?
qu'enfado é mais milagroso?
quando desperto p'la manhã há 'inda um só sol q' s'ergue,
e 'nquanto não forem dois, aqui, onde 'stou, tudo anda bem...
pouco m'importa q' sejam pobres 'stes versos.
aqui cheguei pranteando; daqui hei d'ir-me cantando.

15, Abr, 2009

confiar-me um plano...
............................[d’ q’ maneira?
se meu ‘spírito falha inadvertidamente,
c’mo ‘sta hora, q’ não posso sequer ‘ncontrar cousas
q’ também falham inadvertidamente,
p'ra compará-las c’o meu ‘spírito...
hoje não sou nem 'scritor;
hoje sou uma cousa igual a mim,
e 'sto não é tão grande cousa p'ra q' se seja um 'scritor...
se n’uma hora ‘stá forte o ‘spírito,
e tenho todos os caminhos,
n’outra hora m’abandona o ‘spírito,
e não tenho nenhum caminho...
olhar à frente?
se passo-me a perna tão logo olho à frente...
assinar um contrato?
se apunhalo-me p'las costas
............................[sempre q' me dou as costas...
confiar-me algo?
se não posso confiar-me nada sem qu'isto
represente uma zombaria d' mim p'ra comigo...

deitar-me... sim, deitar-me...
(c'mo se o sol não me dissesse respeito...)

14, Abr, 2009

(já não me parece tão bonita a casa d’amanhã...)
há momentos em q’ s’está bem justamente onde s’está...
há momentos em q’ a ‘strada é mais...
..............................................[nem sei o qu'é mais a 'strada...
por vezes dá ganas d’ ficar parado, coçando a cabeça.
sequer me chamaram, qual a razão d'ir-me?
eu chamei-me, e é 'ste o segredo...
e se não for 'ste o segredo?
se não chamaram a um, nem ao outro...
('inda, fariam tanta falta 'stes, q' não chamaram!...
mas só se faz falta se se chega, e hipoteticamente,
caso se não chegasse...)
hoje o sol voa c’mo um grande dragão doirado,
e amanhã? amanhã é a casa, se ma abrirem...
amanhã é o sol, se houver...
amanhã...

10, Abr, 2009

sobr’este sentimento q’ trago, a ver ‘stas cousas d’a natureza,
‘stes eucaliptos, 'stes bambus, e o conjunto vário d’ tudo ‘sto,
........................................[não m'há o q' possa dizer...
talvez jamais haverá, ‘nquanto forem homens 'stes
,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,[q' se vão por ‘sta terra abaixo...
d’entre todos os poetas q’ li, nenhum houve qu’em versos soube dizê-lo,
nenhum qu'o dissesse completamente, senão em p'quenas partes...
sei, c’ntudo, qu’alguns d’eles traziam consigo 'sto mesmo q' sinto,
alguns por um dia, outros p'la vida afora,
uns n'um 'nstante d' lucidez, outros n'um momento d' sonho,
c’mo uma flauta ou c’mo um tambor, mas 'sto mesmo q' sinto...
liga-nos uma canção q’ talvez não se possa cantar.
........................................[a mim falta gênio pr’isto.
faltou-lhes, n’o tempo d’eles, outrossim gênio p'ra mesma cousa.
aqui 'stivessem, haveriam d’ concordar c’migo...
........................................[n'o 'ntanto, é uma bela canção;...
mas c‘esta qualidade d’ distância q’ faz d’ela uma cousa levemente triste,
e mais tarde n'a vida a única cousa qu'há,
c'mo a leve tristeza d'uma flor qu'é uma flor
........................................[unicamente porque não se a pode ver,
ou o trigo a crescer tão-somente trigo porque não se o pode tocar...

se compreendes, são muitas 'stas poucas linhas... e tenho falado d'mais.

09, Abr, 2009

abre-se à frente o imenso parreiral,
..................................[os montes d' pinheiros ao redor
e 'sta tarde rubra d' luz e vento...
é uma paisagem tão cheia d’ grandezas 'sta,
q' s'estende até onde posso ver e mais longe 'inda,
..................................[e só d' vê-la se m’aperta o peito...
‘sto porque a grandeza d’as cousas depende
..................................[d’o tamanho d’ quem vê as cousas,
e quão p’queno devo eu ser,
pr’esta paisagem qu'é só uma p'quena parte d' terra
..................................[parecer-me tão assim, grande...
eu, o q’ não posso ‘nvaidecer-me d’ ser grande...
por q' razão eu, e só eu, d’entre todas as gentes
..................................[haveria d’ ser grande?
por q' razão haveria eu d' ser maior qu'outros?
‘sto seria c’mo s’entre todos 'stes pinheiros sobre o monte
..................................[um houvesse q’ fosse sequóia...;
mas vê, são pinheiros sobre o monte...
são pinheiros sobre o monte...

08, Abr, 2009

tenho pouca filosofia, se tenho alguma...
n'as literaturas, digo qu'é boa a primavera,
..................................[contanto q’ s'escreva n'outono;
n'as políticas, afirmo qu'é boa a diplomacia,
pela razão d' qu'um homem forçosamente vive melhor
..................................[quando não ‘stá morto;
n'as cousas 'spirituais, sustento qu'é bom ter crenças,
mas não a ponto d’acreditar-se verdadeiramente n’elas.

o resto m'é só um p'queno acontecimento,
c'mo quando alguém sacode um lenço p'ra fora d'a janela.

04, Abr, 2009

perdeu-se algo, por 'stes dias d’a minha vida...
(será verdade...? fala-se tanto se se tem sono!...)
perdeu-se algo... algo qu’era d’ singular importância...
.............................................[algo c’urgências...
o qu'era 'sta cousa importante q' se perdeu?
havia-me um compromisso inadiável,
n’algum lugar d’antes, lembro-me d’isto...
mas qual era, mesmo, ‘ste compromisso?
tenho a sensacção d' qu'há n'algum edifício qualquer sala aberta
c'as gentes dentro, 'sperando-me 'inda, a irromper euforicamente
............................................[porta adentro,
tão imperativo qu'era 'ste assunto a ser deliberado e 'stabelecido...
n'o 'ntanto, pensando melhor,
devem ter morrido todos a 'sta hora, tão passada é 'sta lembrança...

tenho ‘nvelhecido, e tão pouco tem importância!...
tão urgente é tudo, quando o tempo é muito!...

ah!...

03, Abr, 2009

pego-me, às vezes, a 'specular c'mo aqui 'stou...

parece-me diariamente q’ p’la primeira vez levantei-me d’a cama...
parece-me diariamente q’ pela primeira vez tomei café
...................................................[e comi biscoitos,
e olhei p’la janela o movimento d’as gentes...
e ‘sta impressão diária d’ q’ tudo ocorre p’la primeira vez...
é diariamente q’ a tenho, ‘inda é diariamente q' m’espanta.

umas vezes algo diz qu'as gentes movimentam-se n’a rua todos os dias...
q' meu café é quotidiano, c’mo são os biscoitos...
e n’o ‘ntanto, 'sto parece muito improvável d' ser.
o homem d’a padaria, reconheço-o vagamente;
e é vagamente qu'o cumprimento, d’ longe...
ele retribui-me o cumprimento, e me chama p'lo nome...
..................................................[ele sabe meu nome!...
vem a mim.
pergunta-me c'mo foi a semana; não sei o q' foi a semana,
nem quem é 'ste homem q' cumprimento e pergunta-me
..................................................[c'mo foi a semana...
outras vezes, quando 'stou só, tenho a sensacção d'uma menina
..................................................[qu'eu talvez tenha amado...
amei ontem uma menina? não recordo c’mo ela parece...
se tem cabelos cacheados ou lisos, olhos castanhos ou verdes...
e se teve lugar mesmo ‘ste evento exasperante d’eu amá-la...
talvez n'uma terra distante 'sto tenha se passado,
d'eu amar uma menina... talvez em algum lugar eu 'steja
a viver feliz p'ra sempre, c'mo n'os contos d' fadas...
..................................................[talvez...
qu'houve alguém q' foi há muito, 'sta é outra sensacção q' tenho;
tenho 'stado muito só, e 'sto, sim... sim, 'sto deve ter se passado...
n'o 'ntanto, não recordo a última cousa qu’eu disse pr’aquele
q’ se foi há muito, s'houve alguém q' se foi a muito...
talvez tenha sido rude... sou rude n'umas ocasiões,
sem dar por 'sto.
talvez, 'inda, tenha sido amável...
sou amável n'outras ocasiões, c'o mesmo 'spírito;
ou talvez tenha ficado calado, sem saber qu'alguém partia,
p'ra n'algum tempo, n'o futuro, ter-se ido há muito...
tudo 'sto se me passa c'mo uma cousa tênue e sem sentido,
dentro d'outra cousa tênue e sem sentido...
...................................................[talvez...
acendo um cigarro... o universo todo é descer 'sta rua
qu'é cheia d' casebres brancos,
c'mo s'eu 'stivesse a ver eternamente a mesma folha d'árvore
............................[a cair d'a mesma árvore, p'la primeira vez...

02, Abr, 2009

há muito não leio um romance,
.............[ou um livro d’ poemas...

tão pouco é 'sto d' ser homem
q' m'horrorizo d’abrir um livro
e achar-me tão completamente n’ele
q’ nada mais restasse a ‘screver;

ou ler um poema c' tantas verdades
q’ percebesse qu’eu já fui dito,
.............[e com louvores...

bah...!

dá-me um cigarro, um pouco d' vodka,
absinto, ópio... qualquer cousa...!

lerei todos os romances, e todos os poemas,
quando não mais 'ncontrar-me d'baixo d'o meu chapéu.