LXXXVII

o terreno ‘stá cercado e as estradas cerradas,
e antecipa-se o inimigo c’ passos firmes d’ colosso (;)
sopra o vento contra nós e - vede -
fogo sendo aceso n'o acampamento contíguo...
faz dias não nos há comida, ou descanso.
contudo, há o inimigo e, sabe-se, o inimigo traz provisões
e espólios e cavalos,
do contrário, como viria d' tão longe,
e como planejaria um regresso,
depois d’ finda ‘sta batalha, d' conclusa ‘sta beligerância?
mortos já ‘stamos, continuarmos aqui,
c' esperas vãs e intranquilas...
por ‘sta razão sugiro, sem audácia
ou desconsideração por vossas belas estratégias,
um ataque bárbaro e sangrento - p’la fronte.

29, Dez, 2008

queria compor uma paisagem,
um campo d’ trigo, um arado, um sol brilhante,
e umas casinhas longínquas ao lado d’uns montes cinzentos d’ pedra,
um agricultor, junto à ‘stas cousas c’mo um cesto, d’alguma maneira...
ou os filhos d’este agricultor c’a mãe, ou um rio e o céu, unicamente...
mas quiçá tenhas razão. quiçá ‘sto não leve a nada...
contudo, há cousas q' parecem tão vastas,
cousas q' d' tão grandes fica-se absolutamente pasmo e comovido...
e queria deixar um testemunho d'isto q' vi, por breve q’ seja,
d’ quão bonito é ‘ste mundo, d’ quão cheio d’ grandezas...
d'a casa d'os meus avós, velhos e tranquilos, c'as hortas e raposas e familiaridades,
d’a alegria triste q’ senti quando meus pais - mais pobres qu’eu -
deixaram-me à porta pão e ovos n’um momento em qu’eu precisava d’ pão e ovos p’ra comer,
ou d' quão violento m' foi um ocaso púrpura que vi certa vez,
à beira d’um rio, e q' me fez chorar - de gratidão e humildade...
não sei...
ando confuso em meu raciocínio n’estes dias, talvez desde sempre... ainda, sou sensível em absoluto,
e tudo ‘sto me rasga d’um modo q’ não ouso profanar
c’ estéticas e filosofias.

26, Dez, 2008

é verdade qu’eu tenho as mãos tristes
e o peito pesado - com'um sino d' ferro...
sim, é também verdade q’ não sou um qualquer maquinismo,
e q’ meu ofício depende d’as estações,
c’mo se fosse um p'queno romã...
..................................................................
e tenho as mãos tristes porque foste embora
e não voltaste...
‘sto me doeu tanto... foi-me tão duro...!
porque m’eras uma ponte, uma vereda à tarde alta...
porque m’eras o q' já não sei q’ m’eras...

porque hoje tudo o que resta de ti sou eu,
e porque ‘sto me é tão pouco...

LXXXVI

triste a benevolência
q' em momento de justa fúria sucumbe,
e por ‘ste momento é lembrada - unicamente -;

mais triste - porém -, a vileza,
q' deposta d'armas n’o instante em q’ d'a rosa dispõe
ergue-a, c'mo s'ergue um punhal,
e é mal-interpretada...

LXXXV

tão 'scuro ‘ste quotidiano dos homens
- o andar-se p’las alamedas vendo n’as cousas tão somente uns turvos movimentos,
c’mo se através d’uma cascata d’água corrente, sempre...

e tão bonitas - conquanto breves - as cousas quando se as contempla além d’esta cascata...!

um ramo d’oliveira é uma fortaleza esquisita, q’ não a d’um ramo d’oliveira,
e a completude d'a oliveira é tod'um reino - ainda q' sem reino...;
um rio é algo ao rio estrangeiro, e mesm'uma flor não é sequer uma flor...

e quando aquele q’ vê c’outras formas d’ ver senta-se na companhia d'outros - alma posta com’um sudário -,
e comunica o que se passa além das águas...
‘aquele ou está louco, ou charlataneia' - dizem -;
não lhe percebem a figura - c’mo um espantalho contando histórias de pássaros n’um campo triste,
d’onde se foram os pássaros...

LXXXIV

n’estas noites d’alvenarias
proliferam-se as brocas e as argamassas,
e os tijolos e os cimentos;
todos ‘stes trabalhos e labores...
q' sabe 'ste homem d’eles...?
tem de realizá-los sempre c’ incertezas e dubiedades...
q' será d’esta obra, finda, conclusa,
ido o alvener e longínquos os carpinteiros...?
‘ste homem d' projectos e intentos,
ao pôr-se à parte p’ra contemplar
o que foi feito d'o q' trazia n'espírito, q' verá...?
a mansão profunda c' jardins d’ flores e pórticos
q' c'mo um sol lhe dormitava n’alma - e n’engenho -,
ou - ao invés -, as ruínas d’esta mansão profunda,
c’mo fantasma q' nunca houve - enterrado n’um sopro...?

LXXXIII

'stá pronto teu quarto - e teu leito -,
c’as casas e c’as bonecas d’ renda,
doiradas p’lo sol q’ s’entra d’ fora da janela aberta...
c’as pelúcias e figuras e desenhos d’ princesas
e príncipes profundos - em ceras sobre a cômoda -...
c’o abajur d’enfeites sobre a mesa-de-luz,
os lençóis brancos e um raminho d’ violetas,
encima da poltrona d’ tecidos;
‘sto n’um tão perfeito arranjo
c’mo s’estivesse eternamente ‘stado esta
habitação, - em rósea leveza -,
‘sperando-te, com resignadas paciências (...)
e tu, - em teu orgulho -, renuncias a vir.

LXXXII

percorrer ‘ste casebre d’ mil portas,
a buscar u’a única aldraba, um trinco,
u’a água-furtada d'sconhecida e ‘scura,
u’a mansarda p’la qual não se possa olhar p’ra dentro
- ou p’ra fora -...
mas m’estão tod'as portas de par em par abertas,
e a luz incide sobre tod’as as câmaras,
e transfere-se p'ra tod'os os cômodos...
há conferências em tod'os os quartos,
e deliberações em tod’as salas...
dentro d’as paredes e d’as tábuas,
tudo é conforme às paredes e às tábuas,
e a cozinha c’as caçarolas no fogo
é só u’a cozinha c’as caçarolas n’o fogo...
m's quando quero ir-me pr’outros lados,
além d’esta p’quena habitação tristonha e sem ‘spantos,
arrasta-me um ou outro criado novamente p’ra dentro,
e põe-se a m'observar - c’uma perplexidade fria e exasperante.

Sete P'quenas Canções (e um Provérbio)

I
alva, dá um passo adiante!
o dia vem n'as costas d’a luz,
e o sol, e as colinas...

II
n'a neve viva
as narinas ‘scoram o ar...
ouvem-se carros d’ primavera
n'os teus córregos tristes...

III
a luz d’ tarde coroa a cama!
olhos d’orvalho n’olho em breve
- abertos
e as florestas dormem,
c’influências secretas...

IV
baixa converte-se a ilha
ouvindo - vem distante...
ventos d’ clima comprazem-se
d’as tuas pérolas por ti.

V
a oeste brilha
meu ninho...
flor d' solstício
deleita-se c’a noite.

VI
a primavera cerra-se
- c’mo u'a concha -,
à consciência.
e as alegrias d’o leito,
o amor extingue.

VII
cordeiro, alegra-te
e de novo escuta.
o lamento consterna,
e ergue muralhas
à vista d'outros.
o que dizeis...
dizeis ou orais?

***

o asno oferece pasto p'ro leão q' vem p'ra ceia.

LXXXI

descrestes d’as cabras e d’os espinheiros,
e d’o vento trajado d’abelhas e folhas (...)
descrestes d’o rio.
‘stais, contudo,
precisamente entre ‘stas cousas,
ora parados e inexpressivos,
ora afanando-se d’assombro
ao menor passar-se d’ brisa,
ao mais ínfimo movimento d’ ramagens
- c’mo qu’à vista d’um fantasma
trazendo n’as mãos a cabeça - (...)
enquanto a jangada que vos conduz
- água abaixo -,
dança d’um lado pr’outro, - pasmais -,
c’mo q’ encantada d’ feitiços.

09, Dez, 2008

homem d’ comensais e amigos,
comerciante e mercador,
à porta diurna d’o café - entr'outros -...,
tenho o espírito ferido d’ bambu e rosas,
e tenho andado sozinho, minha irmã,
c' marés inteiras n'os olhos...
d’ouro gongo, e vista d’ rendas e juta,
meu irmão e a neve - escura e triste
sobr'as campanas e penumbras,
minha pele d’ trapos,
n’esta tarde de bétulas olvidas,
e cinza premonição d’ fezes...
qual me foi a palavra d’oráculo?
meu futuro é ‘ste, d’esquecimentos e mudas,
d’ eterna semente sem primavera,
d'espectros sombrios d' febre e câncer,
c'o tambor e c'as crianças
e c'os bens e c'os jardins,
indo-se c’mo um vento p'ra campanhas distantes...?
não conheço o sentido profundo d’o meu verso,
trepadeira mágica sobr'uma catedral abandonada...
quiçá haja amanhã um ídolo, um amuleto, u'a reza,
ou u'a pá p’ra q’ se m’enterre 'lguma divindade n'o peito,
um pouco de café, e paz, e música,
sem 'sta lembrança triste d’ ter-se havido um sonho
d’antes - u’a peônia soterrada n’a montanha d'espírito
um ramalhete enclausurado n’o peito,
e um cadáver frio d' leão e dignidades...
ardem ‘stas ruas c’mo girassóis e fogueiras,
e m’imiscuem c’mo dunas d’areia tristonha...
a chuva a cair c’mo um enforcado
e u'a espada longínqua d'a lona d'o circo...
claros são teus olhos, e tua boca, e teu ventre,
pois q' não te conheço...;
quem és, q' à porta bates e não entras,
e d'onde vens, pequena?
tenho sangrado c’mo um cervo baleado,
e morrido cem mortes distintas n’uma única semana.
tenho sido um tordo n'o ninho d'águia,
e uma chaleira sobre o fogo - vazia,
e minh'alma - um herói enterrado n'um depósito 'squecido...
quero ‘sta noite puxar um gatilho,
quero o ‘stampido d'um tiro a dobrar
c’mo o sino d'um canário...
quero um crime, uma sordidez, uma vileza
- ‘stou disposto a cometer mil assassinatos,
a apunhalar qualquer homem p'las costas,
a culpar o firmamento p'la minha infâmia
e a deixar-me jazer sobre o asfalto,
c’mo a carcaça d’uma égua dourada...
amas-me tanto, e sou um cretino, minha irmã...!

LXXX

há muito encerrados os trabalhos
d’as copas - e d’as cozinhas -,
e concluídas as ceias - c'as garrafas,
vazias c’mo fantasmas
junto d’os pratos d’ loiça...;
anda findo o tabaco,
e baixa a luz do lustre - da vela -,
e exauridos tod'os assuntos...
encilhados 'stão os cavalos,
e prontos os carros d'ida,
na fronte resoluta d' casa;
a porta vai aberta e - 'inda -,
conservam-se Eles - sombrios -,
sentados à mesa.

LXXIX

vazias ‘stão nossas espingardas,
e 'nferrujadas nossas adagas.
em breve chegará o dia em q’,
por dignidades, deveríamos empunhá-las;
s'aproximam exércitos pelos flancos
e p’la fronte, ansiosos d’ sangues,
e nos estômagos d’aqueles soldados,
outro exército d’ carneiros e bois...
as campânulas - c’mo orelhas,
auscultaram-lhes os passos, p’lo campo,
e disseram-nos isto:
não restará sequer o cadáver
d'aquele q’ decidir-se por manter
barraca n’este lugar;
quem fizer 'inda fogo entre ‘stas árvores,
este ‘stará perdido.
aqui não cresce o centeio, e a terra é falha d’ lúpulo.
à noite rondam monstros p’lo acampamento,
e à tarde plena não descansam os homens...
(...)
fizemos o melhor que podíamos. adeus.

LXXVIII

n’a cadeira balançar-me
......................[à frente d’a casa,
passadas as tardes c'mo carros
estranhos d'aparatos brilhantes...
chacoalhar um grilo - solitário -
'ntre uma genciana e outra,
reverente às corolas e à brisa...
c’um suspiro recordar-me
d’uma borboleta prateada
q’um dia voejou-me a fronte,
sem qu'isto m' dissesse respeito,
........................[aparentemente...

LXXVII

‘ste é o momento em q' bruxuleiam os álamos,
e tremeluz a estrada, como se não houvesse...
aqui ciciam as ramagens - volta... -
o céu é ‘scuro ao meio-dia -
e a alcova prenuncia u’a desgraça e u’a morte...
n’esta terra estranha, não se vê o trigo;
‘ste é o momento de descrer-se do trigo.
d’ saber q’ não há seguros em favor
do filho q‘está fora - entretanto...,
pesa ainda n’aljava a provisão qu'é precisa,
e pode-se, 'inda, conceber um retorno...
‘não há nada lá’, falar pr’outros,
enquanto se fuma um cigarro na varanda
iluminada d'a casa...
passar os dias a olhar p’ro cipreste do jardim,
c’a sensacção d’estar-se em família...

LXXVI

‘ste universo - houver enquanto -
fulge eternamente c’ estranhas
luminosidades...
ao lusco-fusco corresponde simultânea
a aurora,
e mesmo a noite irradia o véu triste
de raios que lhe é peculiar...
não há grão de poeira q’ não seja luzente
n’este lugar,
ou glóbulo d’ pó que não corusque;
tudo aqui é brilho d’ gemas e águas,
e ‘sta obliqüidade eléctrica
q’ permeia a cidadela... é perene,
e ‘stá sempre, tremeluzindo púrpura
- e lilás.
irmanam-se em coração as cousas,
por uma corrente brusca de relâmpagos
e forças.
‘sta não é uma câmara escura;
cada muro encerra tempestades...
e mesm'homem, vê, é uma lanterna
c'o fósforo - perpetuamente acesa (...)

LXXV

me apraz a estrada vazia d’outros.
os bosques 'onde todos vão, desprezo;
as matas cheias, repudio;
as fontes repletas d' gentes
estão sempre vazias.
é n'as fontes que ninguém conhece
qu'encho meus cântaros d’água;
onde o caminho é turvo,
é lá que recolho meus seixos;
onde a via é tortuosa, encontrar-me-ás
percorrendo, sem lamparinas ou bengalas.
s'encontrarmo-nos,
é bom que saibas que não tens um amigo.
ficaremos juntos até qu’eu decida ir-me,
e isto te será tudo.

LXXIV

aproximem-se os q' me procuram,
q' em vão me procuraram,
os q' querem falar comigo,
e os q' buscam conselhos e resoluções...
a chaleira já arde no fogo;
meu espírito está hospitaleiro hoje,
e as portas da casa estão abertas.
bebamos café e comamos torradas
e chocolates;
tenho frutas e brotos,
e cerveja e pães de todos os tipos...
falemos de amizades e do verão
que anda perto e dourado,
com'um pequeno pássaro
q' há muito se esperava na janela.
q' nada nos seja amargo durante 'stas horas;
não haja sequer uma cabeleira grisalha
entre os que sentam ao redor desta mesa!
meus nobres visitantes,
'ste é um momento de paz e bom augúrio.
faz sol, e a vista é tão clara, e tão bonita...!
n'este dia acontecem todos os matrimônios...

LXXIII

sou não mais n’um espelho,
- à margem d’um lago -,
ou n'um plácido e tranqüilo
ulmeiro d' bosque.
sou velho,
e estive aqui antes e sempre.
na companhia d’ele andei sobre colinas
e montanhas e charcos e pântanos,
sobre ermidas e desertos e florestas...
foi-me mostrado o que não me devia
ter sido mostrado (...)
d’baixo d’este fumo q’ vedes subindo
- esparso e vago -,
‘steve sempre u'a fornalha;
e ‘stas flamas hão de queimar reis
e arruinar impérios,

algum dia.