XIII

há muito que ver-te não.

ver-te e isto antes me bastava,
com meus olhos escuros ver-te,
na figura de uma bétula andante,

ou no ofício de chave e luz
para as portas do seio fechado

há muito que ver-te não.

mesmo com os óculos de um sonho,
distante que estás de meu caminho
de buscar um caminho,
envolvendo-me com sexo
triste das papoulas.

o que descobriste,
em teu perseguir o concreto,
no curso estranho dos anos
e das pestes,
não mais me interessa, amor.

o tempo, passando denso,
deformou-te tanto a silhueta
que tenho medo de um regresso;

quiçá fez-te pior o muro
que a brisa.

és-me hoje o cadáver
de uma princesa bonita

e eu, um ir-se embora,
sou-te uma espádua intranqüila,
sempre.

os dois bifurcamo-nos.

foi-nos o destino uma língua furiosa de cobra,
e o tempo um oceano espesso de baba e veneno.

XII

À noite a torre da igreja é
Como algo que é igual às árvores.

Deus nada sabe de ser homem,
Porque Deus é aos homens estranho
Como são estranhas as ruas aos pássaros;
E não há uma compreensão de Deus
Para com minhas negras tíbias e coração,
A não ser a compreensão
De que fui para Deus um feito necessário
E uma horripilante intuição da imposição sinistra.

Deus nada sabe de ser-me
Como nada sei eu de ser Deus.
Sou inconciliável com Deus,
Como são inconciliáveis
O travesseiro e a máquina,
A caixa e a asa,
Como são inconciliáveis
A pena e o mel
E o fumo e os peixes.

À noite são as torres das igrejas
Coisas do mundo como todas as coisas;

Passaram-se infinitas tristezas
Desde que Cristo traiu os homens
Com oliveiras verdes e esperanças escuras;
Desde então se espalharam os homens,
Em Cristo pelo bojo mudo do mundo
E foi como uma população de fantasmas se perpetuasse,
Esperando no estômago de uma quimera
A aparição fugidia de um espectro.

Da falácia luzente
Que é o sol para os que o sol vêem
É que fala o sol, precisamente,
E da crueldade suprema que é o mundo
E a mistura estranha de luz e nada
Que se converte,
Em alguma hora a Deus alheia,
Em árvores e torres de igrejas,

E nestes versos tristes de sal e vento.

XI

Da ubiqüidade da selva
E da seiva eis-me surgido,
Um raio de delgado movimento
E brutal e escarlate fisionomia.

Poderia ser que ser-me
Fosse um equívoco dourado
À guisa da gaiola estranha que envolve
O leão florescido em um galho,
Mas ser-me, ah! ser-me,
Isto é de uma inevitabilidade cósmica
E uma verdade,
Como a derradeira visão branca
Do pescoço que o vampiro ameaça.

Da ubiqüidade da selva
E da terra eis-me suspenso,
Uma ventania tímida
De feto circunspecto.

Meu caminho é o
Rio pardo e duplo
De foz e nascente sombrias
Como o desaparecimento
De um pêssego claro
Dentro de uma pia secreta;
Aquém dos frutos
Nascido, além dos frutos
Extenso.

Entre isto é o turvo pesadelo
Que sofre o cotidiano escuro
De meus medonhos testículos.

X

Os outeiros, vede os outeiros...
A noite cobre os outeiros,
Honesta como lâmpada
Pretérita e desacesa;
Vede o resvalar-se do sol senil.
Os outeiros são somente
Coisas estranhas que ocorrem
À noite;

Os outeiros, vede os outeiros...
O dia perscruta os outeiros,
Falacioso como cão
Em graça e garbo felino;
Vede o levantar-se do sol viril.
Mesmo o sol é somente
Uma coisa estranha que acontece
À noite;

Existir é um fenômeno noturno.

O Credo

meto-me entre as ruas escuras, na boceta negra dos dias;
estendem-se à frente, as ruas, várias delas, uma imensidão delas,
como hemorragias geladas no peito perpétuo das cidades,
uma torrente plena de pólipos e carcinomas vindos de não sei
onde, em direção a lugar nenhum, recendendo vagamente a lama e mofo,
e, qual é mesmo a palavra para acumular terra?, ah!, prosperar,
recendendo vagamente a mofo e lama e prosperando,
e eu no meio de tudo, perdido e abatido, despedaçado por
murros e socos, a cara e o ventre nus e abertos,
as fezes expostas como a herpes,
sendo tão mais manso com o mundo quanto mais terrível a violência do mundo,
eu, tremendo e com medo, estremecendo de medo no meio de tudo,
um medo horroroso e medonho, um covarde, eu, um mesquinho, eu,
um santo como todos os santos, o medo,
esperando parado, infundadamente esperando,
esperando desesperadamente qualquer coisa maligna
que meu pressentimento eriça,
virando o rosto para todos os lados para ver o inimigo que não vejo
e com isso virando as costas para todos os lados igualmente,
sendo frágil e forte no centro da rosa dos ventos,
o sul uma perfídia quando me viro para o norte,
o norte uma traição quando me volto para o sul,
esperando, desesperadamente e mais desesperadamente ainda esperando,
até o credo, o esperançar-me que a morte me venha com uma rosa ao invés de uma foice,
oferecendo-ma, para que a tome de livre vontade,
de livre vontade, por deus, o alívio, com todo o absurdo do credo,
por livre vontade, por deus, o alento, com todo o grotesco do credo,
por deus, espontaneamente, com todo o maravilhoso que é poder tomar a rosa
e com o caule trançar e costurar os lábios úmidos de uma vez por todas;
meto-me entre as ruas escuras, na boceta negra dos dias,
pesado como um intestino cheio,

cansei de ser elegante.

IX

os troncos azedos dos olmos fendidos
os diáfanos caules das borboletas maduras
as rubras crisálidas do sangue, ímpias de terra,
os pássaros tapeados com suas asas desúteis,
os mornos núcleos de jazz no cú aberto do cosmo,
o céu absurdo como um sol quadrado fora de um sonho
a densa gravitação da hera, silenciosa, improvável,
a fervorosa prece que é meu nome medonho
a rispidez da aresta no súbito canto da esfera

que deus nos salve todos.

VIII

Antigamente, da loucura para a religião;
Atualmente, da religião para a loucura.

Teratologia

não aceito nada no que não seja forte e brutal e ferino
e que não transborde sangue e cuspe por de cuspe e sangue
desaver o estar-se pleno
não aceito poetas e romancistas e físicos e garis
mesquinhos e covardes e fracos e débeis
deploro os pequenos satisfeitos com a obra
e a indústria de salvatores e coelhos e de cruises
e qualquer pena menos viril e menos poderosa
que o imenso caralho maravilhoso de shiva
dá-me uma náusea e depois um vômito morto e frio
e uma subliminar vontade estranha de cagar sob a lápide de um edifício
ou em rua do centro no meio do mais brilhante dos zênites
para que o mundo descubra de uma vez por todas a merda
e boquiabra-se,
e quiçá aplique o neo conhecimento no cotidiano mesquinho
que se leva ou mesmo na pior das hipóteses fazê-lo
sem qualquer intuito a não ser aderir à filosofia do mundo hoje
de que se pode fazer qualquer coisa contanto
que não se tenha o mínimo pudor e nenhuma vergonha na cara

Ômega

(...)
Separa-me do que doira fora a azul fronteira de uma cortina,
E o incestuoso plebiscito de existir-me conduz à cloaca morna
Um mundo dentro de um mundo; sou-me, por inteiro,
Uma inconstância rude de plúmbeo menir sob as terras das idades
Muitas das esferas, o giro incalculável de um peão sozinho
No intestino de noites amontoadas sobre noites,
E faz noite ainda e o quarto abre-se, um deus decomposto,
Liberto como a fusão de uma guilhotina madura, eu,
Uma ilha dentro de uma ilha dentro de uma ilha dentro de uma ilha
Dentro de uma ilha dentro de uma ilha dentro de uma ilha dentro
(...)

Cèlèstè

dobrado, uma esquina sobre uma esquina,
e ainda longe da genuflexão tépida dos mortos e cegos
- a cegueira é a morte quente, é a morte rubra a cegueira -
e o vômito em uma cascata sublime. faz frio à noite. é gélida a noite,
e neva a neve ardente da cocaína sobre a mesa fria
e alvejam-se os rostos, e ah!, quero-te limpa,
te quero limpa, emersa de uma banheira plena de ácidos
e desinfetantes, quero-te assim, limpa e desnutrida,
como se nunca antes metida por um inverno ou uma primavera sequer,
direta de além das primaveras e invernos,
como um imenso bebê pelado e animalesco quero-te,
do único jeito que vale a pena ter-te, imberbe das barbas de qualquer rei,
vem, pura, de antes da crisálida, morna,
ansiosa e tremendo, sedenta e famindo, vem, pura,
no estado bruto da realidade de um animal, e rasteja sob as roupas
como se no interior das grades e da jaula de um manto ou de um sudário
sangrento, debate-te e livra-te
de todos os deuses, e santos e mártires
como um cão se livra das sarnas, e dá-me o que resta,
e dá-me a leveza do que resta, a verdade do que resta, dá-me,
nada é mais que tudo, dá-me,
despeja-te sobre minha língua como morfina empalidecendo um abismo,
qualquer pesadelo selvagem pelo meu abismo,
e escapemos do lado venoso da cidade triste
e trepemos através da próxima noite bêbados de vinho e maldições,
vai ser mais uma bela noite gélida, vê!, já desce o crepúsculo por detrás dos edifícios,
já desce o crepúsculo, já pulsa o crepúsculo,

Vermelho-blue.

VI

às margens da estrada,
detenho-me;
ainda, passa-me a estrada...
uma estrada é algo estranho com coisas
brotando e fenecendo dos lados;
e quando um se senta às margens,
contempla a estrada como é a estrada,
e vê passar uma ou outra coisa
até que não há mais o que contemplar-se;
até que um mesmo alvoreça em deserto e em flor
que houve, n’algum ponto nobre e antes,
antes nobre porque antes;
é-se o centro da estrada por aqui,
e é-se a estrada para lá.

a estrada é o espírito violento de uma faca absurda,
que atravessa todas as carnes.

V

A ciência é uma escada infinita para deus.

IV

O milagre é o braço mais longo da ignorância.

III

A beleza, freqüentemente, é o estar-se fora de contexto.

II

Vida é tudo aquilo que o trabalho torna supérfluo.

História Curta

Quando o anjo da morte apareceu para o filósofo,
O filósofo pensou que estava fodido.

I

quando há realidade, a fé é supérflua.
não é preciso ter fé no cascalho
que polvilha a estrada estreita
que no interior conduz à igreja;
ou na grande sequóia que ladeia a janela do púlpito;
ou na acácia solitária que antecipa a exuberância
de um domingo de primavera.
quando há algo, não há fé; quando há fé, algo falta.
é ver-se vivo de um buraco, a fé.

uma confissão triste, de um túmulo vazio.