meto-me entre as ruas escuras, na boceta negra dos dias;
estendem-se à frente, as ruas, várias delas, uma imensidão delas,
como hemorragias geladas no peito perpétuo das cidades,
uma torrente plena de pólipos e carcinomas vindos de não sei
onde, em direção a lugar nenhum, recendendo vagamente a lama e mofo,
e, qual é mesmo a palavra para acumular terra?, ah!, prosperar,
recendendo vagamente a mofo e lama e prosperando,
e eu no meio de tudo, perdido e abatido, despedaçado por
murros e socos, a cara e o ventre nus e abertos,
as fezes expostas como a herpes,
sendo tão mais manso com o mundo quanto mais terrível a violência do mundo,
eu, tremendo e com medo, estremecendo de medo no meio de tudo,
um medo horroroso e medonho, um covarde, eu, um mesquinho, eu,
um santo como todos os santos, o medo,
esperando parado, infundadamente esperando,
esperando desesperadamente qualquer coisa maligna
que meu pressentimento eriça,
virando o rosto para todos os lados para ver o inimigo que não vejo
e com isso virando as costas para todos os lados igualmente,
sendo frágil e forte no centro da rosa dos ventos,
o sul uma perfídia quando me viro para o norte,
o norte uma traição quando me volto para o sul,
esperando, desesperadamente e mais desesperadamente ainda esperando,
até o credo, o esperançar-me que a morte me venha com uma rosa ao invés de uma foice,
oferecendo-ma, para que a tome de livre vontade,
de livre vontade, por deus, o alívio, com todo o absurdo do credo,
por livre vontade, por deus, o alento, com todo o grotesco do credo,
por deus, espontaneamente, com todo o maravilhoso que é poder tomar a rosa
e com o caule trançar e costurar os lábios úmidos de uma vez por todas;
meto-me entre as ruas escuras, na boceta negra dos dias,
pesado como um intestino cheio,
cansei de ser elegante.