10, Jun, 2009

Trago ultimamente o espírito submetido a pressões fortes e constantes, e não atino pela causa.

Venho a observar-me, e ando diverso do que era.
Meu espírito trai-me o bastante para que não possa confiar-lhe mais certas cousas...

(Já vistes, à noite, pendurados nas paredes, corpos mais escuros que o quarto?
Ou durante o dia, vos absorvestes na percepção de algum objecto que para outros não existe de todo?)

Tenho deixado-me por vezes demasiadas horas a fumar sobre um banco,
a ver em tudo tão-somente algo como que uma vaga familiaridade de rosto na rua...
Mas serão importantes estes detalhes?
O que me é importante agora é que creio que qualquer cousa, cedo ou tarde, romper-se-á em mim...

Compreendo-me melhor a alma, hoje, no entanto
(caso porventura posso atribuir-me alguma compreensão...).
Se sempre quis um pouco de paz e sossego,
mesmo tendo aparentemente toda a paz e todo o sossego que pode um homem ter,
é porque consiste-me a alma em uma beligerância a fim de que se mantenha minha alma
(como uma fortaleza que fosse definida pela manutenção de uma fortaleza, não pela forma ou pelo préstimo, ou pela qualidade do que se entende por uma fortaleza...),

e se, por razão, nunca se me veio às telhas um pensamento claro,
chego a pretender, por fé, pensar claramente em alguns momentos,
e isto me sugere que, pela minha natureza de escritor,
talvez uma assim conjuntura me seja favorável, caso tenha eu algum talento e perspectiva...

Mas, e caso não os tenha?
Que há de suceder-me?

O ficar-se completamente louco é algo com que não me preocupo, em absoluto;
É o mesmo que o ficar-se completamente são.

Terminar-me a viver em sociedade com crises esporádicas de loucura, tampouco isto me desassossega;

O que me desassossega é terminar-me em uma casa de alienados, com crises esporádicas de lucidez.

07, Jul, 2009

"a sabedoria de um homem consiste
em percorrer a casa e ver-se tal como realmente é",
disseram-me, e creio que me arruinaram a vida.

pois bem, encontrei-me, e vi-me tal como sou:
sou uma cousa triste e sem préstimo que cresce
n'um qualquer canto de sala.

é-me um mistério, agora, como um homem pode ser feliz
quando sabe que é uma cousa triste e sem préstimo
que cresce n'um qualquer canto de sala...

digo-vos, portanto, hoje, com toda minha sabedoria:

oxalá fosse eu sábio ontem!...
ter-me-ia procurado no jardim, e encontrado-me nunca...

mas como isto não pode ser,
oxalá ao menos tivesse eu um pouco de inteligência!...

ser-me-ia óbvio e evidente então que,
do mesmo modo que unicamente ao enfermo
.................................[cabe pretender ser são,
tão só um tolo pode desejar ser sábio.

Uma Máxima & Dois Pequeníssimos Poemas

A verdade é uma espécie de prima pobre da literatura.

***

A arte é buscar uma flor
da montanha
que não cresce na montanha.

***

Passam os alegres campos
e os tristes campos passam
com o ficar-se dos campos.

02, Jul, 2009

Disseram-me que alguns destes poemas são belos, e perguntaram-me: 'são teus estes poemas? se o são, hão de saber-te o nome, qualquer dia...'
Mas!...
Meu nome!...
Pouco me importa que saibam meu nome...
Hei de carregá-lo às costas, sim, e com dignidade, até o último dos meus dias; mas interessa a mim, tão somente.
Se hão de proclamá-lo alto, associado a pecados, que o proclamem alto, associado a pecados;
Se hão de sussurrá-lo entre virtudes, isto será igualmente sem importância, como uma carta endereçada a um morto.
E quanto aos poemas, não são, de maneira nenhuma, meus estes poemas.
Tomai-os, levai-os adiante, declamai-os como se os tivésseis escrito.
Embora tenha eu praticado o acto, fisicamente praticado o acto, não foi uma escolha minha escrevê-los - não tenho partes nisso de escrever poemas;
Não fui o que pensou, ‘ah, agora hei de escrever poemas’, e comecei a escrevê-los, como quem vai à esquina e compra uma panela...
Nunca quis isto; quis sempre qualquer algo que não isto.
Estar-se por detrás da máquina não é uma cousa nobre;
Não é uma cousa bela;
É uma cousa triste, como a eterna companhia d'algo que não há...
A ser honesto, fosse-me dada alguma escolha, estaria em qualquer outro lugar, perpetuamente almoçando.

Uma Pequena Fábula

Alguns homens louvam publicamente as coisas pequenas, porque são mais adequadas ao seu tamanho.
Daí decorre que descobrem um número cada vez maior de imperfeições nas grandes coisas e atribuem predicados cada vez mais favoráveis às pequenas coisas, assemelhando-se ao anão que louvava o pequeno arbusto ao pé da imensa sequóia, certa vez.
Dizia: 'este sim, é um grande vegetal!...'.
Então outro homem, que passava, observou: ‘Mas o senhor não vê, claramente, que a sequóia ao lado é maior do que este, qual é a palavra?... insignificante, sim, insignificante, arbusto?’.
‘Pode até ser’, o anão respondeu, ‘mas vê a ramificação dos galhos da grande árvore, é irregular; a feiúra dos galhos é flagrante; o tronco é demais grosso, o que significa maior voracidade no que diz respeito às coisas da terra, e a falta de parcimônia, como se sabe, é um vício'.
'Agora vê este arbusto. É compacto, e não são visíveis as torções dos galhos, porque os encerra no interior das folhagens, de modo que a figura externa acaba mais equilibrada e bonita; ademais, retira da terra só o que necessita, portanto é parcimonioso, e isto, como corrente, é uma virtude’.
O intelecto do homem da história, que não era muito brilhante, infelizmente não penetrou suficientemente na alma do anão no instante em que isto se passou. Então acabou por concordar com a análise da pequena criatura. Quem quer que leia o que escrevo há de ver que a fábula assim concluída não se adequa à moral que propus nas primeiras linhas. Sei-o, bem, perfeitamente...
No entanto, como faço minha esta história, dou-lhe, a este homem, um pouco mais de inteligência, e nesta um direcionamento sincero. Acrescento-lhe ainda certa coragem e um temperamento objetivo o bastante para não entrar, ao mínimo estímulo, em considerações fastidiosas sobre a natureza singular de cada coisa. Dou-lhe também, mas isto unicamente por capricho de plagiador, uma longa cabeleira ruiva. E assim pronto, ele fala ao anão, sem precisar ser mais claro:
‘creio que o único problema dessa sequóia, meu amigo, é que não lhe cabe inteira no espírito...’