28, Mai, 2009

ela margeia os sumagres, que são dois, e a cerca amarelo-vivo
......................................................[da casa,
e sorri quando me alcança, e diz que estou novamente atrasado...
eu penso nela - será isto muito estranho? -
mesmo quando estou com ela, e é maio ido,
e em breve será junho, e em algum lugar um pessegueiro
abrirá uma flor pequena e branca, enquanto vou-me
.......................................................[pela rua, com ela ao lado...
não vivesse eu, que estaria fazendo ela agora?
talvez ela preferisse, como antes, cerejas-rosa às amoras,
talvez ela dançasse sempre a um passo maior de distância
.......................................................[do par...
talvez ela escolhesse outra geléia que não de figos na feira,
quando o sol se ergue, rubro e imponente, e proclama o domingo,
como se fosse alguma sangrenta independência,
ou talvez ainda ela não vivesse, porque algumas vezes,
vocês sabem, também os destinos riem-se dos acasos...

ela diz que quando chegarmos em casa faremos amor,
e eu penso em escrever-lhe estes versos
para que saiba que a amo pelas pequenas coisas
......................................................[além das grandes,
mas tenho qualquer compromisso e não poderei fazê-lo,
até que seja noite.

27, Mai, 2009

claro que compreendo.
compreendo perfeitamente. mais que perfeitamente, até.
sai-me a compreensão pelas orelhas, de tanto que compreendo.
sim, tendes todas as razões. e um bonito paletó, senhor.
sim, concordo, hoje em dia um bonito paletó é uma razão indiscutível.
tendes razão novamente. deveis ter muitos paletós, senhor.
sim, toda a razão, tenho me comportado como um irresponsável.
sim, tenho que parar de fumar.
sim, beber não é um hábito lá muito salutar, também.
exato, um verdadeiro senhor já nasce de paletó e gravata.
não foi isto? perdão, não escuto direito com o ouvido certo para estas ocasiões...
ah, sim, eu poderia ser um advogado, ó, ou um diplomata.
não, não havia me ocorrido isto. tendes maravilhosas idéias, senhor,
considerarei o assunto, e torno a falar com o senhor dentro em breve.
sim, prometo comportar-me com a respeitabilidade que a hora exige da próxima vez,
embora meu traseiro seja mais respeitável que vossa inteira figura, senhor...
o quê? disse que mereço, é indubitável, cada censura, senhor.

14, Mai, 2009

(acerca de certos acontecimentos, conclui-se que)

é boa a filosofia do oprimido enquanto oprimido.
em momento que o oprimido insurge-se contra
..................................................[o opressor,
e o vence, ainda que conserve a mesma filosofia,
passa a haver nesta filosofia algo de maligno,
e esta é uma conversão sob aspectos irreparável.

isto se dá porque uma filosofia não é boa ou má
senão na medida em que se a conserva em espírito,
..................................................[como abstração,
ou se a impõe a outrem, como acto violento.

o carácter moral de uma filosofia é em relação
com a violência de que esta filosofia é causa.

13, Mai, 2009

neste momento de meditar-se, olhando fora a janela,
os edifícios, e este aparente movimento
tranquilo das gentes, vem-me ao espírito
uma pequena consciência que subitamente tomo...

que se passou há anos, que não recordo senão vagamente,
na forma desta pequena consciência que sem querer vem-me,
olhando fora a janela, o movimento das gentes e do tráfego,
aquele homem que entra no edifício, e o outro, que dista
.............................................................[ligeiramente pela rua?

perdem-se as cousas, por vezes em um passado tão remoto
que se não sabe que delas tomou-se consciência,
quando consciência se delas toma,

como uma única flor de epoméia, sem raízes ou folhas,
sobre a pérgula alta de uma casa...

permitir-me-ia afirmar, talvez, noutra ocasião,
que quando há significados, pouco importam as cousas,

mas isto noutra ocasião...
hoje escrevo um poema simples, e sem demasiada filosofia.

que se arranje um pouco belo, e isto será suficiente.

13, Mai, 2009

os morangos estão vermelhos e maduros,
com suas pequeninas e frescas sementes,
e as colhedeiras estão a colhê-los, um a um,
................................................[como convém...
são tantas as folhas, e tão poucos os morangos...

tem-se que procurar, quando se os olha de longe,
longamente procurar, até que se os veja,
................................................[primeiro um,
depois outro, e outros ainda há, além das folhas,
que não se pode ver, pois que flutuam com leveza
n'algum lugar entre este e o próximo verão...

as colhedeiras afastam os ramos suavemente
até que encontram um que estava
por detrás das folhas, perto de um caule,
.................................................[mas que merece ser colhido,
talvez por ser o que estava mais recôndito,
e essa talvez seja uma das maiores virtudes,
e este talvez tenha mais valor...

a vida delas parece tão leve, a mim, que não sou-lhes a vida...
eu tenho que lutar tanto!...

quem dera colher morangos!...
mas, é isto suficiente? não, não é suficiente...
quem dera querer colher morangos!...
e fazer disto minha vida. colher morangos,
como estas senhoras, debaixo do sol que brilha...

“este é mais vermelho.”. uma diz à outra.
“não, aquele é mais vermelho,
mas é outro certamente o mais doce.”.

nenhuma delas saberá quem teve razão, e não se importam com essas cousas...

põem-nos dentro do cesto,
tomando cuidado para não machucar os demais.

09, Mai, 2009

ele ‘stá aqui, ao lado, e sussurra-me suave ao ouvido
o cálculo derradeiro d'as cousas...
mas há c'mo q' 'stranhezas perversas n'este acto
qu'ele efectua, com aparente benevolência.
d'acordo c'este derradeiro cálculo d'as cousas
........................................[jamais 'steve ele aqui,
a sussurrar-me ao ouvido 'ste derradeiro cálculo
........................................................[d'as cousas...
e há uma 'stranheza 'inda maior n'isto.
'ste cálculo derradeiro d'as cousas 'stabelece
precisamente a 'ste derradeiro cálculo d'as cousas
........................................[c'mo algo perpetuamente oculto,
à maneira d'um corpo eterno e sem efectiva presença,
e n'isto s'assemelha a ele, q' mo sussurra suave, ao ouvido,
........................................[com benevolência aparente.

04, Mai, 2009

dizeis q' sou um místico.
mas o qu'isto significa, ser um místico?
místico porque falo d' deus?
................................[mas se jamais falo d' deus, deus,
c'mo não falo d'árvores 'nquanto árvores,
ou flores 'nquanto flores...
há sempre uma cousa por detrás
................................[d’ qualquer cousa,
com’outra árvore por detrás d’aquela árvore
................................[q' contemplo,
alguma flor por detrás d’esta flor q’ vejo...
e se olhardes c' atenção, mesmo em deus não figura
................................[a cousa derradeira;
há algo por detrás d'ele, seguramente...
e maior.
talvez por 'sto sou um místico...
s'isto é ser místico, bem, sou um místico,
................................[se quereis...
n'o 'ntanto, as cousas não são o q' parecem,
e é ‘sta uma conclusão tão poderosa
................................[quanto inevitável,
e chamo a 'sto lucidez, não misticismo...

sim... cada qual dá os nomes c'mo convém.