01, Abr, 2009

dói-me o 'spírito, e ele veio ver-me uma vez mais...

‘stá aqui, e sou-lhe eternamente grato por ‘sto...
..................................[amo-o ternamente por ‘sto...
e 'inda, sou eu quem o ama, e não posso dar-lhe o qu’ele me dá.
ele, qu’é alegre e ‘sperançoso, e traz mais otimismo
..................................[n’o peito q' o campo d' peônias, peônias...
ele vem a mim, q' sou taciturno e perverso,
e 'scureço-me c' tanta frequência c'mo a d'as noites.
..................................[ele vem por vontade...
ele, q' m'ama c’mo o tenho amado,
mas qu’é por temperamento e caráter dado aos maiores sacrifícios...
ele carrega-me às costas quando meu peso me vence.
ele... q’ quando ‘stava caído n'o chão c'mo um cachorro 'nfermo
chamou-me, e passei perto, fingindo não ser eu quem passava...
n'aquele 'nstante jazeu silenciosamente n’o chão,
sofrendo calado por saber qu’era eu quem passava
.................................[sem 'stender-lhe a mão;
n'o 'ntanto, quando s'ergueu, por força d'inabalável alegria,
veio ter c'migo uma vez mais, c'a mesma alegria d'antes...
sou-lhe eternamente grato p’lo qu’ele me dá,
e amo-o ainda, c’um amor qu’é o meu, e não é dado
sequer aos menores sacrifícios...
..................................[ele sabe o qu’esperar d’ mim...
sabe q’ no ‘nstante em qu’ele se rompe, c’mo um edifício,
..................................[e vem abaixo,
‘mpurro-o c’ força e saio d’ perto e salvo-me a pele...
e sabe também q’ n’o momento antes d' ruir-me,
..................................[chamo-o p’ra sustentar-me, sempre.
e ele vem, e eu vou-me, tão logo ‘stou seguro novamente...
e ele chora, e não ‘stou ao lado...
e ele crispa-se, ao ver-me ao longe, indo p’lo caminho,
..................................[sem olhar p’ra trás...
e ele segue-me, e o recepciono friamente.
mas sou-lhe grato por seguir-me,
..................................[e amo-o c’o amor qu’é meu amor,
frio e soturno e imperturbável, c'mo uma forca...
s’ele me compreende verdadeiramente, não o sei;
mas cai-me o 'spírito, e ele ouve...
fecha-se a janela, e ele vem...
apaga-se o quarto por um segundo apenas,
e ele põe-se ao lado, alumiando-se c'mo uma lâmpada forte...

31, Mar, 2009

q' tenho eu n'o mundo q' não seja um mistério...?
não tenho certezas d' ter nada, sequer uma compreensão...
se a única cousa q' tenho é o q' sou,
e sou unicamente 'sta sensacção d' q' sou qualquer cousa d' mim alheia,
c'mo as gentes q' passam d'o lado d' fora d'a janela...
'sta sensacção d' q' não tenho verdadeiramente um princípio...
'sta intuição d' q' o princípio é q’ tem as cousas, e não as cousas
........................................................[tem um princípio...
por ‘sto as cousas são vazias, penso, quando as olho diretamente...
mas... é possível qu'isto seja verdade?
se a verdade é sempre uma cousa oposta à verdade...
é 'ntão por outra causa q' n'o mundo não há sentido
quando o contemplo c'os olhos e c'alma,
c’mo quando um se dirige a um ‘scritório
........................................................[e 'stá vazio o 'scritório...
ou c’mo quando se vai n’um circo e não há o circo...
ou c’mo quando se pega uma flor e não há deus...

e n'o 'nstante em qu'estes julgamentos sempre equivocados
dão-me vontade d' chorar, subitamente algo alegra-s'em mim,
........................................................[e 'sto põe-me doudo.

30, Mar, 2009

n’este lugar riem-se as árvores
..........................[em pêssegos e laranjas,
e um’aragem suave derrama-se d’o alto,
..........................[c’mo um ‘spírito doirado...
eu ‘stava triste antes qu’aqui chegasse,
pois q’ tenho ‘sperado, longamente ‘sperado,
..........................[e a 'sto tem se resumido minha vida...
mas c'mo não ver qu'apesar d'isto aqui m'encontro,
n‘este lugar qu'é belo e exuberante,
e d’ocorrência tão rara mesmo aqui ond'ocorre,
..........................[n’os limites sempre tão 'stranhos d’ casa...?
por um 'nstante me parece evidente qu'o mundo
..........................[é tão só haver 'stas árvores
precisamente onde é inconcebível haver 'stas árvores...
'sto faz c' qu'eu saiba, c’mo s'eternamente soubesse,
q’ minha tristeza é tão somente uma tolice mesquinha
..........................[perto d' tudo q'há,
e qu'ao fim toda cousa verdadeiramente grande
n’esta vida é uma questão d’ fé;
e meu 'spírito, sem q' possa fazer mais nada, deita-se tranquilo,
..........................[c'mo uma fonte clara q' transborda.

26, Mar, 2009

n‘este vilarejo, c’as casas p’quenas e d’ madeira,
......................................[são tempos d’agricultura.
há um arado apequenando-s’ao longe,
e dois homens, um imerso n’o doirado d’o trigo,
outro levando um cesto fechado p’ra casa.
......................................[uma criança o ‘spera à frente,
c'algo impreciso n'as mãos, e uma ou outra abelha
voeja-me à fronte, c'um movimento gracioso e exacto...
venho a 'ste lugar sempre q’ posso,
‘mbora ‘ste lugar seja distante d'onde moro,
pois qu'aqui m'é permitido não pensar jamais n'as cousas,
e m'é bom descansar à sombra d'os eucaliptos,
......................................[quando faz muito calor...
percebo perfeitamente q' m’observam os outros d'aqui
......................................[c'os olhos arregalados d'espanto,
c’mo s’esta não fosse minha morada;
olham-m'os camponeses c’mo s’eu fosse a última cousa
qu’um camponês ‘spera ‘ncontrar n’uma rua d' terra...
n'o 'ntanto, sinto-m'em casa aqui, precisamente;
‘sto, é verdade, m'faz uma sensacção confusa,
c’mo s’eu mesmo batesse à minha porta,
sem q' fosse possível a mim receber-me...
......................................[c'ntudo, 'stive fora por muito,
e 'sto não traz novidades ou surpresas, em absoluto.

23, Mar, 2009

ond’está ele, q’ vem, mas sempre distante?
ele sabe qu’ando triste, às vezes, pois qu'o ‘spero...
o vento dobra entre as flores d’amendoeira,
e as cerejeiras d’os campos balouçam suas
...............................................[rubras e bonitas cerejas,
mas c’mo p’quenas moedas qu’a um mendigo s'oferta,
quand'estou n'o longo ofício d'esperá-lo...
lembro d’o qu’ele disse certa vez, antes d’ir-se.
ele soou c’mo q’um pássaro q’ canta p’la última vez
n’o crepúsculo, sem q' soubesse qu’era crepúsculo;
e n'aquela noite fui dormir sereno,
e fez-me outra noite n'espírito, quando despertei-m'então...
...............................................[ele há d' vir algum dia.
'spero-o quotidianamente, à varanda, sentado n'a cadeira d' palha,
e quando s'aproxima uma silhueta ao longe,
é quotidianamente q' sei q' não é ele q' s'aproxima,
pois q' não se movem as ramagens p'ra cima
...............................................[à vista d'este ou d'aquele 'strangeiro,
nem desce o sol a alumiar-lhe o caminho...
hoje ele ‘stá lá, em algum lugar, e jamais saberei onde.
talvez não voltará n’o tempo d’a minha vida,
...............................................[qu’é curto...
talvez nunca o veja, em silhueta, aproximando-se p’lo caminho
...............................................[qu’à minha casa conduz...
mas tenho flores sempre ao lado d'a porta,
e maçãs frescas postas sobr'a mesa,
e c'mo 'stas flores abrem-se perpetuamente
...............................................[n'um rosa c'da vez mais rosa
e 'stas maçãs brilham dia sobre dia c'um vermelho
...............................................[c'da vez mais doce,
ouso 'sperançar-me, mesmo q' timidamente,
e alegrar-me c'esta manhã q' s'ergue d'o leste, suave
...............................................[c'mo um grande deus d' plumas doirado.

20, Mar, 2009

não tenho pensado muito, ultimamente.

pensar tem-me sido uma diligência triste,
pois qu'ou lembro d’as planícies d’o sul,
......................................[q’ são mais verdes,
ou penso n’as planícies d’o norte, onde brotam as flores.
'ntão sento-me, o ‘spírito vazio c’mo um cântaro,
......................................[n’este lugar ond’estou,
e 'scuto as histórias q' me contam os outros...
o q' vem d'o sul, quando chega a ‘ste lugar,
sabe d’as planícies ao sul tanto quanto sei...;
assim os dois falamos d'as cousas bonitas
......................................[q' brotam n'as planícies d'o norte,
e há concordâncias d' q' se nos fatiga tanto o caminho,
é porque n'esta vida nada d'exuberante se consegue c' pouco;
......................................[o q’ vem d’o norte, c'ntudo,
diz qu’há certos aspectos d' viver-se q' são os únicos
aspectos d' viver-se - por mais q' n'eles um não pense -,
e q' não há 'speranças d'encontrar as flores qu'um procura,
pois q' quanto mais ao norte se conduz o homem,
tanto mais 'stranhamente ao sul 'stão as flores...

pousa um pássaro rosa n'a margem d'a janela,
e a alma pesa c'uma frieza insuficiente.

14, Mar, 2009

'ste homem q' cruza a rua,
ele 'stá seguro pr’onde vai - e d’onde vem...
.................................[é um homem d’ certezas,
p’lo porte seguro, traje impecável,
e relógio, qu'ele constantemente consulta,
.................................[c'mo a um oráculo.

quanto a mim, não tenho sequer 'stas certezas;

quando o vejo, 'ste homem, tenho uma obscura sensacção
.................................[d'outro homem por detrás d’este,
e outro homem ainda, e outro, uma longa sucessão d'homens,
.................................[c’da qual c'um porte diverso,
um traje outro q’ não 'ste paletó impecável
e transferindo-se a qualquer lugar além d'este a qu'ele se transfere;
ele, quando vira o rosto e me contempla, rapidamente,
sou-lhe com'outra cousa qualquer d'esta paisagem...

a rua qu'ele cruza tem n’esquina uma quitanda
.................................[c'o proprietário dentro,
prestando companhia às couves e aos aspargos,
.................................[um banco fechado a ‘sta hora,
e um pombo branco q' se move por sobre as pedras, c' fome e sede...

'sta rua tem-m’este aspecto unicamente
.................................[quando não lhe presto atenções.

quando me detenho são-me outras as cousas qu’há na rua,
cousas ‘stranhas e inconcebíveis d’a perspectiva
d’este homem d’irrepreensível figura e andar resoluto.

.................................[ele olha ao relógio, p’ra saber as horas.
eu nunca olho ao relógio. não m’interessam as horas.

‘screvo ‘stes versos sem querer dizer algo c’eles...
chamar-me-á a morte algum dia, c’mo ao homem d’ q’ falo,
e terá havido razão suficiente p’ra ambos
d’baixo d’este sol q' brilha, doirado c'mo a cúrcuma,
.................................[c'mo as laranjas, c'mo o açafrão...

10, Mar, 2009

d’baixo d’as figueiras imensas,
.....................................[ele me chama...
‘scuto-lhe o chamado c’mo uma brisa
q' traz um aroma doce e um som
.....................................[d’um sino suave
e por entre as figueiras se move,
.....................................[n’esta hora d'ocaso púrpura,
q’ dá às árvores uma qualidade rósea d' sopro.
.....................................[ele me chama...
não compreendo exactamente o significado
.....................................[d’o qu’ele diz,
nem o qu’espera d’ mim, nem d’onde me chama...
chama-me d’ todos os lugares,
e a voz d’ele é o tanger-se d’uma corda mágica,
e toca-me não o ouvido, mas o peito,
e afaga-me não o rosto, mas o ‘spírito,
.....................................[e sinto-lhe a presença inteira,
'mbalando-me, c'mo um berço...
ele é belo, ‘mbora não o veja nunca,
ele é sereno, 'mbora dance eternamente 'ntre 'stas folhas,
e ele é bondoso, 'mbora doa-me c'mo uma chaga n'alma triste...
ele vem quando não n'ele penso,
e o deixo soar ‘ntre as figueiras,
.....................................[e ele cresce,
c’a naturalidade d’um figo rubro,
.....................................[n’esta vasta e nobre paisagem.

09, Mar, 2009

quand'eu era p'queno, - e morava
...........................[n'uma casa grande,
c'um grande pátio, um grande jardim
e quatro grandes quartos bonitos,
vinha sempre um homem velho
...........................[e magro à porta
n'o mesmo horário, p'la manhã,
e pedia um pouco d' pão e água.
n'aquele tempo não m'havia uma
...........................[explicação razoável
pr'aquela assídua e matutina presença,
faminta d' pão e sequiosa d'água,
'nquanto qu'eu bebia água à vontade
...........................[e sucos e leite,
e comia além d' pão biscoitos e bolos
...........................[e carne,
portanto uma assim cousa punha-me meio confuso
...........................[e um tanto perplexo.
mas foi n'aquele tempo, e 'sto modificou-se...
...........................[hoje,
q' c' clareza compreendo tod'as explicações.razoáveis
...........................[q'um homem pode pr'isto conceber,
uma assim cousa põe-me completamente confuso,
...........................[e absolutamente perplexo.

05, Mar, 2009

o relógio d’o mercado ‘spera p’ra dobrar à meia-noite.
tenho andado muito, longamente,
por ‘ntre lugares tão d' mim 'stranhos...
c'mo m’era ‘stranho o poente triste, quando parti.
...............................................[eu tinha ‘speranças.
eram-me os auspícios bons auspícios sempre,
...............................................[c'mo os d' toda juventude,
e havia gentes d' convívio q' m'amavam ternamente...
n'este dia q’ regresso, n'o 'ntanto, ninguém m’aguarda,
e fico sozinho n’esta praça vazia,
...............................................[a olhar ‘ste relógio q’ não bate,
e ‘sta neblina q’ dança por ‘ntre as ‘státuas
c’mo um ‘spírito d' breve e triste silêncio...
trago c’migo o mesmo sobretudo excessivamente longo d’antes,
...............................................[e venho c’os mesmos sapatos...
meu rosto é meu rosto, 'inda q' mais duro e vincado,
...............................................[mas s'isto, segundo se diz,
é próprio d'os homens e d'os pinheiros e d'as montanhas,
'ntão, porque se foram todos, c'mo os tijolos d'uma casa d'outrora?
...............................................[ond’estão meus companheiros,
as noites d’amizade e festejos alegres?
...............................................[ond’está a menina bonita,
q’ m’aguardava c’o coração grande e aberto d' rosas,
toda vez q’ m’ncontrava, c'mo q' por acaso sempre?
d’esta vez q' fui longe, e por muito tempo,
mudou-se tudo, e ninguém mais m’aguarda...
'squeceram-me, c’mo s’esquece o sol d’antes,
pois q' não tem importâncias u'a cousa qu'ontem brilhasse;
...............................................[o sol d’hoje brilha c' mais constâncias...
'inda, c'mo nada fora, ergue-se o mercado c'as luzes apagadas
e o relógio qu'aguarda p'lo acontecimento d' dobrar-se
...............................................['stá aqui, à frente...
por longas tardes contemplando-o 'stive,
e 'mbora permaneça o mesmo 'm detalhe e figura,
parece-me 'sta noite 'nfinitamente mais distante,
e dir-se-ia q' não dobrará à meia noite q' meu coração 'spera
...............................................[nem 'sta, nem outra, talvez jamais...

03, Mar, 2009

‘sto d’aspirar à posteridade, a mim
................................[não passa d’um grande equívoco;
ao homem q' contempla devidamente
a natureza d'as cousas, é-lhe alheio qualquer assim pensamento...
................................[‘ste sabe qu’o tempo 'inda passa,
e qu'à macieira q' sobr'o monte verdeja
é supérflua a maçã d'outrora, quando nova é a primavera...
................................[grandes homens,
assim c’mo bons frutos e paisagens bonitas,
‘stes existem em abundância n’esta terra,
................................[e s'é u'a verdade q' nada se repete,
- e é preciso dar a cada parte o devido valor -,
é outra verdade q' tudo se renova,
................................[e n'isto 'stá um'inda maior valor...
qu'é necessário haver-se outro dia a fim d' q' um s'entristeça
................................[p'lo passado dia,
nada tem c' metafísicas ou elevações d'espírito...
................................['stas cousas d' q' falo são evidentes - e prosaicas,
c'mo são prosaicas e evidentes as flores, e os rios, e o vento...