27, Fev, 2009

passa-m'ela ao longe - diariamente -, c'a simplicidade qu'é d'ela -,
e 'sto ‘scurece os prados e os campos...

os rubros bordos, ‘stes deitam-se
...................[por mais q’ rubros 'inda sejam,
e s’acendem os cavalos c’mo faróis
...................[n’esta terra triste d’o meu orvalho...

ela um dia era 'ste lugar.

'stas salas tornavam p'quenas quand'ela 'ntrava,
...................[brilhante e formosa e infinita, c'mo um pêssego,
e a alma d'ela caminhava por entre um vapor cor-de-rosa,
...................[qu'era 'ntão minha alma...

mas 'sto era um dia, e 'ste dia passou-me - c'mo ela passa ao longe,
e guardo-lhe hoje a ternura e a tristeza c'mo duas moedas valiosas
...................[n'uma caixa q' não é minha.

são tão duras certas cousas...
...................[d'esta vida a graça sem a presença d'ela,
a ruína d'esta fortaleza d'um dia ter-se havido ela,

ela, c'o vestido branco, eternamente atenunando-se c'as distâncias,
...................[jamais desaparecendo por completo.

25, Fev, 2009

por vezes cansa-me contemplar longamente
a verde companhia d'estas tamareiras,
a perene margarida q' jaz n'o canto,
e as orquídeas q' brotam subitamente -
c'mo s'emergissem d'alguma mágica e secreta porta...
por 'sta causa, é c' frequências q' considero partir-me,
......................................[definitivamente.
desde qu'aqui 'stou, pesa-me a sensacção
d'aqui 'star-me por 'scusas tolerâncias e vagas paciências,
o q' m'exaspera profundamente.
......................................[o jardineiro, 'ste jamais me fala;
é c' habilidades q' m'evita, e assume um aspecto
d' longínqua montanha sempre q' m'aproximo;
n'estes momentos, tod'as cousas simultaneamente
s'erguem por detrás da paisagem,
......................................[e m'smo o vento passa impressões
d' cantar eternamente c' distâncias e longitudes.
n'o 'ntanto, não ouso ir-me...
o caminho d' volta p’ra 'ste lugar 'stende-se perpetuamente,
e não há probabilidades d' qu'a 'ste lugar conduza -
.....................................[em absoluto.

21, Fev, 2009

oiço - c' frequências -, q' minha fortuna é pouca
quando s'a compara c'a fortuna d'outros homens...
q' não disponho d'oiro, ou o busco, e ser-me-á, por 'sto,
a vida mais dura d'o q' seria se fosse d'outra maneira;
'scuto 'stas admostações sempre em silêncio,
e compreendo o q' 'stas gentes procuram dizer-me.
mas não tenho um tronco por 'spírito,
e não sou mais u'a cousa pertinente d' mim...;
quando 'stou n'um lugar, não 'stou propriamente
n'este lugar, 'ntão tudo 'sto não me faz diferenças.
'sta é a razão por que, s’eu estivesse sozinho
n’este mundo, deixar-me-ia certamente cair
c'mo falam, n’o mais abjecto ‘stado d’ pobreza;
contudo, também é 'sta a razão por que
a cada brisa q' levanta se m’acende
...........................................[um tamarindo n’alma.

19, Fev, 2009

'ste q' não sabe governar,
...........[é 'ste q' governa;
'ste q' nada tem a oferecer,
...........[é 'ste qu'oferece;
'ste q' desconhece o valor
...........[d'um homem,
é 'ste q' 'stá em cargo
...........[d'os homens.
em decorrência d'isto,
é-nos a vida imensamente dura,
posto q' os homens passamos
através d' desnecessários
............[massacres
e supérfluas misérias
............[- quotidianamente (...)
par'aqueles q' se foram,
fica 'ste memorial - u'a cruz
sobr'uma p'quena área d'erma terra.
...........[p'ros q' vem,
perdoai a crueza d'estes versos;
não m'há 'stéticas p'ra 'sto.

17, Fev, 2009

‘nquanto ‘screvo versos, c'mo às vezes faço,
n’um lugar tranqüilo - e d'outros longínquo,
‘scala-me sempre um pensamento...
é o mesmo pensamento sempre,
........................................['ste q' m'escala (,)
e ainda, não é bem um pensamento...
n'estes momentos, parece-me
q’ tod’as cousas são as mesmas,
e n’o ‘ntanto, diferem u’as d’as outras,
e ‘sto põe-me n’um ‘spírito q’ não sei definir,
pois q’ m’é familiar 'ste 'spírito,
........................................[e n’o ‘ntanto não o é...
é 'sto q' sempre tratei d' passar n'os meus versos,
e nunca obtive êxito - minimamente sequer -,
c'mo sucede n'estes qu'agora 'screvo;
por 'sto qu‘sta é u’a tarde triste, c’mo m' são tod’as tardes,
mas não é u’a pena q’ seja assim...
tudo é em seu devido tempo,
e não dou a 'sto demasiada importância...
s'algum dia consegui-lo, consegui-lo-ei.
d'o contrário, tudo 'stará tão bem
........................................[quanto sempre 'steve...
n'este 'nstante - qu'é onde 'stou,
........................................[por mais q' m'esforce,
quando volto à realidade d'o acto
tudo q' m'há é 'sto: u’as casas ao longe,
a relva, os prados, os campos,
u’a ou outra folha rubra d’alguma planta
........................................[jazendo sobre a terra,
o vento, entr’as árvores - e sobr’os rios,
e c’ele u’a canção suave q’ vem d’o norte,
........................................[quando 'stou n’o sul,
e q’ vem d’o sul, quando 'stou n’o norte (...)

16, Fev, 2009

certa vez pensei qu'isto d'escrever me salvaria a alma.
.......................[foi um grande equívoco d' juventude.
não me salvou alma nenhuma, e quiçá 'inda me mate, algum dia.
.......................['sto porque sou c'obsessões.
e por 'sta razão 'stou seguro d' q' tudo qu'eu realizei
tem menos consistências qu'uma profusa cagada...
tod'os meus poemas foram fracassos manifestos;
em nenhum d'eles expressei-me devidamente,
c'mo se tivesse feito uso d'unicamente duas ou três palavras.
os 'scritores falamos d'mais - e superfluamente (...)
.......................['screver versos - q' grande cousa...
não mais tenho grandes idéias sobre a literatura.
não mais tenho vaidades n'isto d' literatura...;
nem seriedades, s'algum dia levei-me à sério...
mas tenho - 'sto sim - a sensacção, c'da vez c' mais frequências,
d' qu'um escritor figura um completo imbecil,
c'a 'stranha mania d' caminhar léguas e léguas
c'o intuito d' aproximar-se d'a contígua port'aberta
.......................[- d'o vizinho...

13, Fev, 2009

dizer qu'eles são numerosos é equivocar-se,
...................................................[gravemente.
eles são outra - e diversa - cousa...
quand’um sabe d’algo, todos d'este algo sabem ,
...................................................[subitamente...;
e quand’um desconhece algo, é instantaneamente qu'o conhece.
'sta é a razão p'la qual evidencia-se qu'eles são u'a única
- 'mbora complexa - 'strutura, - q' comunica-se d'estranhas formas.
alguns d'entre eles comunicam-se d' modo directo
c’um número infinito d’outros, - c’ 'spantosa sincronia -,
'nquanto qu’outros comunicam-se d'este directo modo
...................................................[unicamente c'o q' lh'é contíguo...
'ste último caso, contudo, causa-me 'inda mais perplexidades,
pois qu'estes, quando se os submete à observação,
......................[[ocupam todos os lugares, simultaneamente.

10, Fev, 2009

compreendo d’ele a contígua presença.
m'a indicam os cálculos e cômputos
.........................[q' c' frequência efectuo (...;)
tenho-lhe avaliado a casa, outrossim,
e ond’ele vive é lugar outro q’ não ‘ste,
.........................[e‘m tudo d'este lugar difere.
mas sei qu’ele passa a vida calculando cousas,
d’o mesmo modo qu’eu passo a vida calculando
.........................[cousas.
'sto porque d’a exactidão distinta d’as minhas
.........................[equações
emerg'ele c’mo q'uma manifestação clara e evidente,
calculando - à minha semelhança -,
.........................[c' furiosa constância.
mas surge outra 'stranha cousa d'estes cômputos qu'efectuo...:
.........................[d'acordo c'os cálculos d’ele,
resulto com'algo fictício e inconcebível,
embor'ele igualmente calcule - segundo me consta -
.........................[c' precisa e rigorosa exactidão.

08, Fev, 2009

(...) minha casa s'ergue fechada às margens
d'um rio q’ passa,
d'onde tod'as gentes contemplam qu'este
é um rio q' passa.
é u'a vista agradável, minha casa, c'as paredes
d' madeira, caixilhos bonitos e bem cuidados,
u'a pérgula formosa c' treliças circulares
e u'a lâmpada sobre a porta d'a frente,
q' s'acende todas as noites - c'mo u'a laranja,
.........................................[ou um cantalupo...
por vezes, quando 'stou perto, m'entretenho
d'olhar p'la janela, c' curiosidades
d' c'mo qu'ela s'efectua por dentro (...)
parece-me, c'ntudo, n'estas ocasiões,
q' quem ali vive perturba-se sobremaneira
c'a minha inconveniente e 'strangeira presença.

05, Fev, 2009

tu, meu amor, q m’amas...,
s‘estás c’migo, ao meu lado, plena d’alegrias...,
mal sabes o q' não sei dizer-te...
tu, meu amor - q’ m’amas,
cintilante e mágica c’mo u’a grand’árvore
.................................................[q’ se move
por 'sta terra ‘inda ‘stranha d’ mim,
d' q' conheces c'da canto, c'da contrariedade,
c’da via tortuosa ao redor d’a montanha...
sei q' quando m' canso, - e deito-me n'um canto -,
pendes p’ra qu’eu durma n’a tua sombra,
mesmo q' saibas quão ‘scura é 'sta terra
.................................................[d' mim 'stranha...
pudess'eu fazer com q' compreendesses
o q' sinto quando vens c'os teus ramos,
e me consentes, c'uma 'spécie d'humor calmo
.................................................[e tranquilo...
todas 'stas cousas fazem c' qu'eu goste
tanto d'ir-me contigo...
tu, meu amor, q’ m’amas,
se tenho-te comigo, plena d’alegrias - ao lado,
mal sabes o q' não sei dizer-te...,
‘sto m’é c’mo s’uma rosa bonita crescesse tanto
q' serenamente transpusesse o céu.

04, Fev, 2009

senta n’esta poltrona, - tu, q' m'amas -,
ao lado d’o vaso c’ goivos dentro,
ou tulipas ou margaridas... - qu’importa?
alcança-me o gim - e os cigarros -,
..............................[com’um favor,
e cerra 'stas venezianas p'sadas c'mo pedra...
agora deixa est'árvore q'exteriormente
dobra c' pássaros, e ouve ‘stas palavras.
..............................[soar-te-ão duras...,
mas passarão, c'ntudo, c'mo um 'squelecto
através d'a porta d'uma casa antiga...:

é d’ minha vontade q’ partas,
..............................[- e q' a 'ste lugar jamais retornes.

03, Fev, 2009

consta, quando julgo minha vida c’ mais minúcias,
qu’ela s’assemelha bastante a um cabal fracasso.
'sto porque não importa onde ‘stou, ‘stou sempre
................................................[n’o lugar equivocado,
porque malogro c' constância n'um ofício 
q’ seguramente m’atrapalhei d’ambicionar,
e porque meu café invariavelmente queda 
................................................[forte demais.
ah...! o viver-se em ‘nganos e confusões...!
é-me tão familiar ‘sto quanto um repolho,
................................................[ou u'a alfafa...!
por 'sto evito julgar-me frequentemente
................................................[c'asperezas,
e limito o tratar-me a gracejos e bons humores...
mas quando meu ânimo s'agrava - e ‘sto se dá -,  
transfiro-me a um campo q’ perto d’a minha 
................................................[casa s’estende,
ponho o nariz sobr’uma rosa, ou u’a margarida,
................................................[e aspiro profundamente...
‘sto faz c’ qu’eu me sinta tão parvo e tacanho
q’ minha vida toma um aspecto d' distinta solenidade,
................................................[quase q' subitamente...

Interlúdio Comercial

o grande Seba, trinta e três anos, SOLTEIRO, que, ao contrário de cristo, não se sente atraído por cruzes, decidiu sucumbir ao império: abriu uma camisaria em Itajaí - Opinião -. 
nunca me passou pela cabeça fazer anúncios, mas a proposta do empreendimento é interessantíssima, e gostei bastante das camisetas.
informações técnicas...: são feitas a partir de malha penteada, fio 30, com estampas desenhadas no corel, ponto por ponto, pelo próprio Seba. 
os temas são 'arte' e 'política'. 
talvez ele fique puto com isso, mas ele manda pra qualquer lugar por sedex, não incluso no preço, lógico, como todo bom turco sabe.
o telefone do escritório é (47) 3348-1308.
o e-mail é camisariaopiniao@hotmail.com.

hasta la vista, babes.

02, Fev, 2009

não sejamos tão sábios,
.......[tão cheios d' piso...;
nem mesmo tão justos,
.......[ou plenos d' siso...
é nenhu'a a cousa q' vale
.......[tanto n’este un'verso,
e nenhum princípio é tão
.......[assim - perverso (...)
um homem c’ razões
.......[é 'stranho d' si...
d' corpo, ‘stábulo distante,
.......[vazio - à légua e meia,
d'alma - cavalo 'm cabresto alheio,
.......[q' relincha - e escoiceia...