30, Jan, 2009

n'este leito, ele vela c'a fidelidade aparente
..................................[d'um cão.
e s'ele não me surpreende jamais, 'sto é porque
d'antes eu antecipava p’quenas alegrias
qu’hoje não me fazem mais sentido d’alegrias.
mas não quero q'sto compreendas;
fizeste tanto p'ra qu'eu tivesse u'a vida bonita...!
trazias-me surpresas à cama,
mostravas-me as salas d' cinema,
e levavas-me contigo à praia,
..................................[p'ra qu'eu visse o mar...
quando 'sto me vem à cabeça,
alguma cousa m'ocorre n'os olhos...
q' saia aquele q' me vela...!, desejo,
e qu’entre alguém p'la porta, c' doces e flores,
..................................[c'mo d'antes...!
mas a porta continua cerrada,
e ele não sai, e ninguém entra p’la porta
c' flores e doces, c'mo tu entravas...
..................................[mas é só um instante.
em profundidade 'spero ninguém.
desde q' te foste ele vela por mim,
e sei q' n'isto ele m'é c'mo q'uma p'quena fortuna...
se tenho medo - d' quando em quando -,
é unicamente porque às vezes me perpassa
..................................[a sensacção remota
d' qu'ele tão só 'spera qu'eu durma,
..................................[par'ir-se - definitivamente.

29, Jan, 2009

ei-la florescida, ofuscante
d' benevolência e ternura...
ei-la, p’quena e formosa,
'ntre as aragens agitando-se...
eles suspiram contemplando-a,
..............[sumptuosa - ei-la...! -,
e felicitam-se por ‘ste breve momento
..............[d’alegrias,
p’la vista brilhante qu'é 'sta
..............[florífera presença,
por ser ‘ste também um mundo d’ flores,
..............[afinal...,
'nquanto qu'ela secretamente murcha,
sob o triste peso d’ não ser u’a flor.

26, Jan, 2008

por vezes me parece tão pouco interessante
.............................................[minha vida...!
tenho todos os dias q’urinar e defecar e dormir
.............................................[e divertir-me...
pagar eternas apólices e perenes serviços
.............................................[e perpétuos seguros...
sentar e não m'exceder à mesa, sob pena d' efetuar
públicas aparições c’ excessiva e indecente figura...
quisera eu ser um d’esses grandes homens
..............................................[q’ se lê n’as biografias,
e ocupar-me tão somente d’ teorias e metafísicas,
d’ beligerantes 'stratégias e investimentos profundos,
sem precisar comer ou dormir, ou tratar
..............................................[d’anciãs necessidades...
ah...! passar meus dias sentado - u'a pedra sobre u'a pedra -,
meditando sobre os mais complexos assuntos
- elevada e imperturbavelmente -, sem precisar ir ao banheiro...
d’esse modo, valeria minha vida u'as poucas páginas,
..............................................[como a d’esses imensos homens...,
ou mesmo duas ‘spetaculares linhas d'epitáfio:

'não se sabe d'onde veio. / ainda vive.'.

23, Jan, 2009

quando vieste,
vieste c’mo um buraco negro,
c’a tua soturna gravidade
d’ passada ‘strela,
e c'o intento obscuro
d'a mim associar-te...
mas ouve u’a cousa:
desprezei-te por livre vontade,
não porque m'equivoquei
ao interpretar-te.
ouve agora outra cousa:
embor'eu fosse ‘scuro - c’mo tu -,
não t'era um semelhante,
c'mo desfavoravelmente supuseste.
e 'sta é a razão...:
tu já eras um túmulo,
e eu sequer manifestara-me.

21, Jan, 2009

quand’é manhá s’abre o quarto
................[com'uma margarida
e o mundo adentra qual foss'um
................[alegre visitante,
c’as ‘splêndidas cerejeiras,
e árvores d’ nozes e d’ laranjas
e ruas cadentes d’ pessoas (...)
mas ‘sto incomoda o hóspede.
quando d'este momento,
................[‘le s’ergue d’o seu canto,
onde ‘stava recluso - 'm perene repouso -,
s’aproxima convictamente d’as janelas
................[e cerra-as,
e às grossas venezianas, juntamente...

‘ntão retorna pr’onde ‘stava
e assenta-se, taciturno - e imperturbável.

17, Jan, 2009

sem qu’aqui ‘stejas envergonho-me d’ mim.
não vejo o q' tu vês, nem sei o q' tu sabes,
e vês tanto...! e sabes tanto...!
podem outros aventurar-se em jogos fantásticos,
............................................[sem q’ digas
"q’ fantásticos jogos em qu'eles s'aventuram!",
não me serão fantásticos em absoluto ‘stes jogos...
pod’a árvore florescer luxuriante à beira d’estrada,
se não ma apontas, não me será luxuriante
‘sta árvore q’ floresce à beira d’estrada...

sei qu'és em tudo u'a desavença, u'a violência,
............................................[um desassossego...
ainda, considero-te na justa medida d'a tua força,
e tudo tolero, excepto ‘sto d’ converter-me
n’um deserto d’ tua comparência.

16, Jan, 2008

ele m’acompanha, c’mo um duplo.
mas não há c’mo defini-lo precisamente c’mo um duplo,
pois qu‘le é qualquer mais ampla e complexa cousa.

quando ‘stá comigo, faço c'ele p’quenos jogos,
d' modo q' posso ‘stabelecer-lhe o comportamento.
n'umas horas 'stendo discretamente o braço p’rum lado,
e n’estas horas estend'ele o braço pr’outro - fantasticamente -;
n’outras horas, jocoso, viro os olhos p’ra cima
e ele, soturno, vira os olhos p’ra baixo;
'ntão rodopio p’ra ‘squerda, e é p’ra direita qu’ele rodopia...;

n’a hora em q’ sobremaneira me canso d’ele
................[- e tomo a resolução d’ deixá-lo -,
ele há muito se foi, e n’este momento m’encontra.

14, Jan, 2009

quando foderes u’a mulher,
fode-a c’ânimo, meu amigo...
ou t’arrependerás n’o dia
.................[em breve
qu’ela não mais foder contigo...!

vê! pode-se foder u’a mulher
c’ flores, d’agosto a agosto,
sem o cacete e os dedos,
mas nunca - sublinho - sem gosto!

algumas gozam d' joelhos,
c’um caralho roçando n’as tetas,
ou só c’os maridos - em casa -,
a foder-lhes sensivelmente
.................[as bocetas;

outras gozam no cú, quando
.................[‘spetadas
por caralhos imensos e bem-decididos
ou n’uma ‘squina vazia,
.................[n’as madrugadas,
chupando o pau grosso d’um
.................[desconhecido...

há as q’ gostam q' se as registre,
e gozam publicamente n’as vias
.................[e ‘stradas,
e há 'inda as discretas e puras
e é d'esse modo q’ gozam,
.................[quando ‘stupradas;

gozam fêmeas c’o rabo pra cima,
atadas à cama - seguramente -,
servindo dois ou três homens
ditosos - simultaneamente -,

e sei mesmo d’história d’esposa
q’ se vestia tal qual vagabunda,
p’ra qu’o amante a pegasse n’a rua
c’mo u’a puta n’a noite profunda...!

portanto, amigo, d' putas à santas
................[e ‘sposas,
fode-as sempre c’ força e vontade,
cada u’a à sua doce maneira,
mas todas c’ luz e verdade,

e d' preferência, fode-as inteiras,
sem muito pudor, ou moralidade,
n’a boca, n’o cú, n'a boceta,
‘sta santíssima e bela trindade!

12, Jan, 2009

desd’o tempo em q’ me fui, lá tudo permanece
..............................................[o mesmo...
a habitação branca d’alvenaria e gesso,
os parreirais d’uvas e cercas,
as fazendas c’ suas relvas e árvores...;
permanece o trabalho sereno d’os homens
..............................................[n’a lavoura,
e o queijo novo n’os cafés d’a manhã;
o leite fresco das vacas, os ovos e bolos
e as crianças rodopiando alegres d' jogos (...)
n’este lugar d’ q’ vos falo,
sempre q'a tarde cai d’o firmamento,
sustentam-na leve os bambus - e as araucárias...
mas d' lá quando se vai não se regressa...
s'isto ocorre, cerram-se à fronte pesados os portões,
e subitamente tudo s’esvai d’ vida e cantos...;
'ntão permeia os rostos d’os anfitriões - ao longe -
u'a nuvem soturna d’ silêncio e gravidades,
e 'sto basta...

n'esta hora, o q' compreende o viajante horroriza-lhe
o 'spírito,
c'mo se lhe brotasse um crisântemo n'o teto d'a casa.

10, Jan, 2009

quando n’a companhia d’outros, nos cafés
ou n’as reuniões à porta d’os empreendimentos,
sou incapaz de qualquer cousa q’ não um despropósito
ou um falar simples, e amiúde intranqüilo...
‘sto porque são tão sábios os outros,
tão seguros n’os assuntos d’ q’ tratam...!
e n’este mundo, parece-me, há tantos assuntos d’ q’ tratar,
e d’ importância tamanha q’ não saberia eu jamais
c’mo concluí-los todos, satisfatoriamente (...)
sou o contrário d’outros...:
‘ste delibera tão bem sobre tudo,
‘quele determina c' perfeição as minúcias d’ todas as cousas;
aquel’outro postula cousas sobre as cousas q’ m’envergonho
só d’ lembrá-las, pois sou c’mo q’ inepto e ignorante
até d’os mais simples objectos.
em qualquer rua discorre-se tão perspicuamente
sobre tudo q’ m’é escuso;
em qualquer 'squina arenga-se c' tanta distinção
acerca d' tudo q' m'é indistinto...!

quando m'acompanho d'estes homens grandes e seguros,
sinto forte quão supérfluo sou à presença alheia...
c'mo u’a placa 'scura q’ sinaliza cousa nenhuma (...)

09, Jan, 2009

a princípio m'envergonhava d’ trazê-lo aqui;
mas em verdade não bem o trago.
ele vem - pois qu’está comigo ubiquamente.
não bem o convoco, tampouco; antes, ele impõe-se,
e se a 'sto admito - a 'sta comparência perene -,
é porque foi ‘stabelecido qu’isto deve ser d’ minha vontade,
d’ modo q’ o constranger-se d’a presença d’ele é,
em certo sentido, o constranger-se d’a minha presença.
ficai sereno, pois.
não lhe interessa nossos assuntos;
ouve-nos por cortês benevolência, tão somente...
deixemo-lo, e vede c'mo fica só, silente n’a poltrona,
bondosamente observando-me.

08, Jan, 2009

há - em julho - um lugar em q’ brota
u'a p’quena flor d’ pessegueiro.
e ‘sta flor q’ brota d’os ramos
entre os ramos 'stá sozinha, n’este lugar ermo,
onde vão poucas as gentes, se vão - em verdade - as gentes...
‘sta flor não tem similares.
ainda, lá cresce, remota d’outras, e distante d' tudo...
c'mo s'esta cousa q’ faz flores as fizesse
p’ra relva e p’ros montes e 'sto fosse em suficiência,
e bastasse-lhe 'sto tão somente, sem q' próxima...
(...)
é àquele q' já o sabe q' deixo ‘ste segredo.
não como um segredo,
mas como um reconhecimento - e u'a compreensão.

07, Jan, 2008

minha cidade jaz encima d’a montanha,
triste e fria c’mo um floco d’ neve,
c’mo um floco d’ neve, triste e fria,
jaz minha cidade encima da montanha...
e a beleza qu’era d’a minha cidade
hoje é uma beleza fria e triste,
c’mo a beleza d’um cadáver d’ moça,
q’ se enterra com penas e incredulidade...
'sto porque meu amor se foi, c'mo uma flor
e minha alegria se foi, com’outra flor,
e são os mesmos meus amigos, e são outros,
com'a terra, q muda d’alma - e dor...
q’ será d’a minha vida, d’pois?
e q’ será d’o meu espírito - em dois,
se o que m'é familiar m’é estranho?
sinto-me só... sinto-me breve - aos centavos
encima da montanha jazendo c'mo uma cidade
sem flor, c'a neve, e c'a moça d’ q’ guardar o cadáver
......................................................[c’ velas e cravos...