Uma Pequena Fábula

Alguns homens louvam publicamente as coisas pequenas, porque são mais adequadas ao seu tamanho.
Daí decorre que descobrem um número cada vez maior de imperfeições nas grandes coisas e atribuem predicados cada vez mais favoráveis às pequenas coisas, assemelhando-se ao anão que louvava o pequeno arbusto ao pé da imensa sequóia, certa vez.
Dizia: 'este sim, é um grande vegetal!...'.
Então outro homem, que passava, observou: ‘Mas o senhor não vê, claramente, que a sequóia ao lado é maior do que este, qual é a palavra?... insignificante, sim, insignificante, arbusto?’.
‘Pode até ser’, o anão respondeu, ‘mas vê a ramificação dos galhos da grande árvore, é irregular; a feiúra dos galhos é flagrante; o tronco é demais grosso, o que significa maior voracidade no que diz respeito às coisas da terra, e a falta de parcimônia, como se sabe, é um vício'.
'Agora vê este arbusto. É compacto, e não são visíveis as torções dos galhos, porque os encerra no interior das folhagens, de modo que a figura externa acaba mais equilibrada e bonita; ademais, retira da terra só o que necessita, portanto é parcimonioso, e isto, como corrente, é uma virtude’.
O intelecto do homem da história, que não era muito brilhante, infelizmente não penetrou suficientemente na alma do anão no instante em que isto se passou. Então acabou por concordar com a análise da pequena criatura. Quem quer que leia o que escrevo há de ver que a fábula assim concluída não se adequa à moral que propus nas primeiras linhas. Sei-o, bem, perfeitamente...
No entanto, como faço minha esta história, dou-lhe, a este homem, um pouco mais de inteligência, e nesta um direcionamento sincero. Acrescento-lhe ainda certa coragem e um temperamento objetivo o bastante para não entrar, ao mínimo estímulo, em considerações fastidiosas sobre a natureza singular de cada coisa. Dou-lhe também, mas isto unicamente por capricho de plagiador, uma longa cabeleira ruiva. E assim pronto, ele fala ao anão, sem precisar ser mais claro:
‘creio que o único problema dessa sequóia, meu amigo, é que não lhe cabe inteira no espírito...’