O Invejoso

Vilipendiado, escarrado à fronte,
Quanta vez fui roubado e traído -
Entre os pulmões por dentes rasgado!...
Tomado entre irmãos por vil e bandido!...

Quanta vez veio-me a faca no beijo,
Ou por detrás do riso o desgosto,
Quanta vez doeu-me o desprezo,
No espaço aberto d’um rosto!...

Arre!, cara feia que me mostra a sorte!...
Monstruosidade que se deita e fuma!...
Quanta vez fui ferido de morte,
Sem morrer-me, entretanto, nenhuma!...

E tu, abençoado por um destino brilhante...
Vindo de ti matar-me-ia o despeito.
Tua grandeza me lha mostra o semblante,
Como uma flecha que me atravessa o peito...

Não hás de saber nunca, subtil bailarino,
Esta verdade que oculto com engenho;
Hás de ver tão só a fenda que me não há,
Ou a chaga - em flor - que não tenho...