O Cadáver Otimista

na praça de certo vilarejo havia um cadáver falante.
...falava de coisas bonitas, o cadáver, das belezas do mundo, da felicidade, da ternura, singeleza, e amor, sim, falava também de amor, e da bondade dos homens, e de todas essas coisas que os cadáveres geralmente falam.
...os homens paravam, e agrupavam-se em torno do pequeno palco que o cadáver ocupava, debaixo de um grande olmo, e ouviam-no, alguns com fé, outros com devoção apaixonada, outros ainda com uma entrega completa e serena.
...um estrangeiro que passava naquela hora parou por um instante, contemplou o cadáver, e pôs-se a seguir seu rumo.
...certo homem, vendo que o estrangeiro assim o fazia, e não o reconhecendo, deteve-o e perguntou:
..."como podes ir-te tão depressa, quando ouves um tão belo discurso? não és daqui, e temo que, mesmo viajando por todo a terra, em nenhuma ocasião além desta ouvirá outro proferido com igual beleza".
ao que o estrangeiro respondeu:
..."este é um cadáver. pode falar tanto sobre as belezas do mundo porque está morto. se vivo estivesse, não seria tão otimista".
então seguiu seu caminho, e o homem não o deteve, dessa vez.

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