Carta Primeira

Interessa-me a natureza, sim, hei de concordar com tanto;
Mas interessa-me outro aspecto da natureza, não esta árvore, ou aquele pássaro, ou ainda aquele monte com o sol encima (...), isto não mais me interessa que um círculo sobre um triângulo, ou a voltar à árvore, um traço sob um triângulo invertido (...); Este aspecto de que falo, e que me interessa sobremaneira - faz-se nos lugares e tempos em que a consciência vaga dentro do espírito como em um conjunto de vielas e ruas, iluminado por uma luz forte, ao menos forte em suficiência para que não lhe escape o mínimo detalhe, a menor das modificações de ângulo no mais ínfimo dos cascalhos, a textura infinitesimal de qualquer matéria (...)
Mas ainda não é propriamente este vagar da consciência que me interessa, ainda isto é nada... Encontra-se, quando por aí se vaga, algumas fontes isoladas de luz, qual fossem lanternas defronte uma ou outra porta que ladeia estas vielas nas quais a consciência caminha; para-se, então, a examiná-las, primeiramente o contorno, depois a qualidade da luz, que a princípio não é diversa daquela outra que permeia tudo, à vastidão; mas isto à princípio... estas - chamar-lhes-ei assim - lanternas, brilham mais fortemente - mais plenamente - do que todo o resto, e são como que por si só vivas, mesmo que sem nenhumas funções evidentes; tornam todo o resto do panorama um pouco mais lívido, mais obscuro, quando se as olha diretamente; e depois de um exame minucioso, com a consciência a revoar-lhes o redor, qual a borboleta que circunda a flor antes de estabelecer-se nela mais demoradamente, descobre-se que estão apagadas ainda; faz-se, por fim, acendê-las, e então elas assumem o aspecto sombrio de escuridão e profundeza...
Precisamente aqui reside meu mais genuíno interesse.
São-me estas as verdadeiras junções do homem com o universo e com a ordem das coisas; estas, que só se exprimem imperfeitamente, e por meio de paradoxos; eis a mágica do espírito: crava-se no cosmo pelo que nele há de irracional e ilógico; toda minha ventura de compreender as coisas encerra-se nisto, e no que me há ou não de suceder-me a partir d'isto, no correr-me a vida;
A natureza crua e geométrica é-me um engano como um buraco que leva tão-só ao seu fundo; um destes fenômenos paradoxais, pelo contrário, é um buraco que leva a todos os fundos. O reduzir-se do universo a triângulos e quadrados vistos de fora é uma suposição infeliz. O homem que defende isto como ideal estético ou metafísico, considero-o desprovido de qualquer propriedade intelectual, madeira de que se poderia fazer uma moldura, caso houvesse, n'algum lugar por perto, um quadro (...)