'ste homem q' cruza a rua,
ele 'stá seguro pr’onde vai - e d’onde vem...
.................................[é um homem d’ certezas,
p’lo porte seguro, traje impecável,
e relógio, qu'ele constantemente consulta,
.................................[c'mo a um oráculo.
quanto a mim, não tenho sequer 'stas certezas;
quando o vejo, 'ste homem, tenho uma obscura sensacção
.................................[d'outro homem por detrás d’este,
e outro homem ainda, e outro, uma longa sucessão d'homens,
.................................[c’da qual c'um porte diverso,
um traje outro q’ não 'ste paletó impecável
e transferindo-se a qualquer lugar além d'este a qu'ele se transfere;
ele, quando vira o rosto e me contempla, rapidamente,
sou-lhe com'outra cousa qualquer d'esta paisagem...
a rua qu'ele cruza tem n’esquina uma quitanda
.................................[c'o proprietário dentro,
prestando companhia às couves e aos aspargos,
.................................[um banco fechado a ‘sta hora,
e um pombo branco q' se move por sobre as pedras, c' fome e sede...
'sta rua tem-m’este aspecto unicamente
.................................[quando não lhe presto atenções.
quando me detenho são-me outras as cousas qu’há na rua,
cousas ‘stranhas e inconcebíveis d’a perspectiva
d’este homem d’irrepreensível figura e andar resoluto.
.................................[ele olha ao relógio, p’ra saber as horas.
eu nunca olho ao relógio. não m’interessam as horas.
‘screvo ‘stes versos sem querer dizer algo c’eles...
chamar-me-á a morte algum dia, c’mo ao homem d’ q’ falo,
e terá havido razão suficiente p’ra ambos
d’baixo d’este sol q' brilha, doirado c'mo a cúrcuma,
.................................[c'mo as laranjas, c'mo o açafrão...
Inverso
1 dia atrás
2 comentários:
Deu pra sentir o cheiro do açafrão... Essa é minha visão... Incrível! (como se negasse a si mesmo) Abraço, Corsooooooo
Vi o homem a te contemplar. Vi o relógio. Vi todos os homens que se sucedem a este..
muito bom, amigo. muito bom mesmo.
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