LXXII

‘ste é meu santuário,
minha choupana, e meu jardim...
o pórtico fica cerrado
e o abro para poucos.
que venham profanar
‘ste ambiente com cânticos
e rezas e tambores,
que venham suplantá-lo
c' p’quenos ídolos
e pedras de muros e paredes,
e aviltar-lhe a paz
c'afãs e arroubos
d’ pólvora e tempestades,
'sto não permito.

se não trazes rosas e doces,
fica distante.

LXXI

(...) que pudesse perceber as cousas
c’uma verdade firme,
- c’uma constância sólida e precisa -,
e eterna c’mo um fruto d’ nenhum’árvore...!
mas quando as examino - as cousas -,
vem-me o sentimento estranho
de que aquele objecto não deveria ‘star ali,
.....................................[[mesmo qu’esteja,
e de que aquel'outro a este lugar não pertence,
ainda qu'exactamente n’este lugar se forme...
(...)
cada pequeno corpo me é como a porta
d’uma casa q' passa pr'outra porta,
q’outra porta 'inda além revela,
'sta dando pr'uma câmara vazia,
onde deveria achar-se a chave d'a primeira porta,
q' - c'evidências -, 'stava trancada
ao parecer-me abri-la, a princípio (...)

LXX

n’esta cadência de ramagens,
ó, camarada, acende teu cigarro...!
tu tens fortunas, e eu tenho nada...
o armazém fica à frente do café,
e ao lado da farmácia, vira ‘sta esquina...!
vai, e não m’olha, c’esta olhada amarela.
acenas p'ra um homem sozinho...
n'a quitanda doura uma maçã,
e 'ste é um dia d' criptas...
passam as mulheres n'a rua,
c'as anáguas e c'os chapéus;
ama-se n'este lugar, n'os passeios,
n'as varandas, n'os celeiros,
n'os pavimentos d’escritório...
e eu q' nunca escrevi uma carta,
q' jamais a dançar fiz despesas d' tempo,
e q' li todos os melhores livros...;
o q' espero sei no fundo q' não há...
q' caço fadas e zebras doiradas;
q' de mim tranco c'aldravas o sótão vazio,
................................[- porque 'stá vazio -,
e q'o mundo se vai, por detrás d'este sonho,
......................[como n'uma sala d' cinemas...
enquanto, fico c'a sombra d’um amor vário,
duas chávenas d’ café,
e o espírito aberto como um cadáver
.................................[q'um assassino deixa...
talvez, se pudesse falar c' mais propriedades
sobre tudo 'sto, calar-me-ia.

O Homem Sereno

'sto de ser homem - como se compreende ser homem -,
d' sentar-se n'um escritório a contar moedas;
d'estreitar os braços com solenidades à presença alheia;
d' franzir o cenho e tratar burocrático c'as amizades,
'sperando que se restitua c' favores pálidos o tempo disperso;
d' ser discreto c'as maneiras boas d' gente educada,
e d'esperar no futuro alguma cousa da vida e do mundo;
faz-me rir tudo 'sto, como um p'queno drama supérfluo...
nada há qu'esperar do mundo e da vida,
....................................[além das cousas qu'estão no redor...
n'universo tudo é abundante; a escassez 'stá nos homens,
....................................[tão menores do que já p'quenos são...!
por 'sto que m'atrai a pândega ao invés d'os ofícios frios...
fumar cachimbos e cigarros na companhia d'outros,
parlamentar sobre o quotidiano e os jornais,
tratar os homens com a dignidade que lhes é devida,
e cuidar em não trazer mais dinheiros no bolso
..............................--....[do que me cabem pães n'estômago...
'sta é toda minha política e economia (...) minha fortuna 'stá
em inquietar-me não c'esta sala de porcelanas;
é sempre que n'alguma hora o que se quebra é reposto,
e o que é reposto, é sempre que n'algum instante se quebra...

'star-se vivo com merecimentos é compreender 'sto;
...........[o resto é um títere triste, e ausente d' cordas (...)

LXIX

sou homem de fé n'as minhas
.....................[incompreensões.
entre as cousas que compreendo,
nada há que valha fé;
tudo vai-se d'este campo,
p'ra tod'as direcções e distâncias,
como se no lombo de tod'os cavalos...
é d'a janela d'a estância
qu'assisto a 'ste pequeno êxodo,
e sinto c'ele qualquer tristeza monótona,
e u'a sensacção d' silêncios q'me aperta o peito;
vão-se os jacintos, as amoras, as acácias...
vão-se os montes, as chuvas, os juncos...
mesmo eu - q' resto sozinho a 'sto vendo -,
.........................[aos poucos m'abandono...

LXVIII

sou chamado a qualquer regresso,
e n'este não há cocheiro q'me guie,
ou companheiro com quem converse;
'sta é uma alameda sem flores,
ou abrótanos, ou cascalhos, ou rios
.................................................[d'água c' cascatas...
levantar-me, assear-me c' propriedade,
contemplar uma vez mais o vaso e o girassol
ao lado, e já não o conheço;
concluo n'outra ocasião meus p'quenos trabalhos...
aonde me levam é para fora d'isto tudo.
m's não me pertencem as chaves, no entanto,
e não se me abrem liberdades n'espírito...
em verdade, 'sto é como estar-se trancado
...........................[do lado de fora do calabouço (...)

LXVII

mesm’ermos os pomares - e vazios os cestos d' frutos -;
mesmo talhada tod’a lenha, e prostrado o boi derradeiro;
mesmo que murcha a última rosa, e remoto o cordeiro d’ pele;
mesmo que se me fenda o caminho em mil desertos d'areias
escuras (...) e que se me extinguam todas as flamas;
e que se me desabem as montanhas, uma a uma, e as pontes,
...........................................................[e os castelos (...)
mesmo que se me tarde o orvalho - ou venha nunca -;
que silenciem as cantigas e os cravos e os alaúdes e os tambores,
e que nada mais penda d’os ramos secos d’a vinha;
mesmo que se m'cerrem as portas de todas alegrias e festejos,
que se me escorracem como a um cão de todas as guaridas (...)
mesmo qu’eu ampare morto meu filho pálido n'a cama d’os braços,
...................[e que venhas em carne e alma a estender-me a mão,
ainda assim não te seguirei.

Carolina, Sem Motivos

'star-te amando, minha irmãzinha,
e ver-te c'os olhos d'um príncipe de fadas,
'sto é despir-te de natureza e verdade,
e profanar-te c'algum desacato triste a alma...

por 'sto - e unicamente por 'sto -,
sói-me não pensar em ti amando-te,
c'o meu coração de nuvem luzente,
e 'sta é minha maneira de preservar-te
d' mim, e d' minha confusão estranha
.....................................................[n'espírito (;)
alumio c'o sempre assombro de ver-te,
clara à frente,
vindo c'os laços e prendas e regaços brancos
d' vestido,
e d'esse instante de magias sei que nada se
me escapa,
e fazes-me contente, vindo c'as prendas
e laços e regaços brancos d' vestido,
e és-me assim qualquer doçura nua d'erros,
e ser-te-ia injusto que houvess'algo além d'isto
- e um despropósito -, como cobrir d'espelhos o lago,
....................................[como velar d'enfeites a rosa (...)

LXVI

d’ele sei unicamente q‘está existindo entre tudo
....................[- permeando nada - e sendo nada (...)
ele é como u’a sombra que se projeta sobre a alfombra,
que quando se remove a alfombra, mantém-se na pedra,
e quando s’escava a pedra, é n' terra que se ampara...;
e ainda ‘sto não o define c'exactidão,
porque d’onde ele vem não há luz.

LXV

o que’le espera de mim, não sei (...)

se n’isto ter paciências,
como n’um brotar-se d’espíritos no santuário,
.................[esperar o tempo que lhes é devido...;
ou se bruta lida,
qual algum duro ofício d'escavação,
arrancar em pedaços o minério, e lapidá-lo, e poli-lo,
dando-lhe, a cada parte, um’alma e um pensamento...

e esta falência, e este lugar escuro...
será por um instante apenas, c’mo quando oscila
a lamparina c’um sopro breve de aragem (...)
ou p’ra sempre, como quando vem forte o vento,
e cerra u’a obscura porta de fundos qu'estava aberta,
........................................[sem que se soubesse d'ela...?

LXIV

julguei que, com serenidade e versos,
percorresse incólume os caminhos do mundo,
....................................................[mas não há verdade n’isto.
vede, abre-se o goivo em novembro qual poderosa flama,
e como a viga grossa d’algum metal alça-se o tronco d’árvore
...............................................................[que margeia a aléia;
há-se que ser duro para que se viva n’este mundo,
....................................................[e não sereno e com versos...
são-nos hostis as árvores, e as flores, e as feras...
ameaçam-nos os bosques, e a mata, e as estrelas...
desabar-nos-á sobre as cabeças o firmamento qualquer dia,
..................[como o teto velho d’um domicílio, e ‘sto é certo:
d’esta família não restará sequer registro.
isto de haver poesia e serenidades é soar o tambor d’outra
floresta no interior da floresta, ocultando o passo do tigre
..............................................................[que nos quer a carne.
é o que se me apresenta hoje, olhando à janela:
no futuro, se não aço c’o intelecto, mente c’o máquina,
.....................................................[haverá não mais o homem.
importa-nos as engenharias, as usinagens, as forças e o titânio;

jogai não vosso tempo fora com versos e poetas...
somos supérfluos à época.

LXIII

est’é minha casa, e est’a minha candeia,
..............................[e minha vida há de ser leve
como vento que por ela passa...

não sou um estrangeiro n’este mundo,
não sou um hóspede que não se deseja,
..........................[aquele qu’entrou p’los fundos,
e que come à mesa o pão que é d’outro...
se aqui ‘stou é porque aqui devo estar,
..........................[porqu’isto me foi concedido,
porque fui feito com o mundo,
e qualquer algo colocou-me aqui,
precisamente entr’estes pinheiros,
..........................[n’este exacto instante de fadas...

sou um vagabundo... que seja; pouco se me dá;
d’esta terra basta-me um pouco de centeio,
...............................[um cântaro, este beijo d’água,
e esta leveza doce que s’estende pelos lábios, como
.............................................[um figo q’adormece;
que compreendam nunca os outros,
.............................................[pelo que me importa...
é inverno, faz frio, e vai-se outro belo dia vestido
..................[c’este manto cheio de rosas, e eu o vejo...
jamais, jamais morrerei insatisfeito.

esta é a saudação d’um vagabundo,
...................[p’ra os rios e os montes e os pássaros,
p’ra as flores d’inverno e a neve que cai n’algum lugar
...................[deste mundo afora...
p’ra lua, p’ra o sol,
...................[e p’ra tudo que há debaixo, e sobr’eles.

LXII

não tive amores, tampouco inimigos,
ou arroubos d' plenitude quando m'inundaram
................................[as cheias e o bom trigo,
ou d' glória, quando soube que vinhas,
...............................[embora não viesses nunca...
afligiram-me não as comoções fortes
ou os fortes apetites; a excessiva beleza,
................................[esta foi-me nada;
a água que subiu do poço foi-me sempre
................................[a necessária,
e d’estrada não trouxe
.......................[sequer um pequeno seixo,
para que nunca pesasse o alforje,
....................[.[à força de apartar-me do leito (...)

isto que sou é o estar-se próximo,
e est’estado d’alma, vede, é a eternidade;
mas'inda, n'hora em que contemplo a flor do pessegueiro
................................................[balançando leve c’o vento,
assombra-me qualquer triste sensacção d'adeus - e de ocaso (...)

LXI

quanto mais d'ele me avizinho,
tanto maior ele parece;
quanto mais n’ele adentro,
tanto mais profundo
........................[se me mostra;
e se está n’um lado,
é n’outro lado qu’está,
e se se põe n’um leito,
é n’outro leito que se põe...

quando o tenho em mãos,
é tudo que tenho em mãos,
excepto ele.

LX

quero-te longe, e espreitas-me a casa...
findo o dia, alta a noite,
oiço teu sussurro por entre
os galhos secos d'outono,
e teu uivo baixo tudo permeia,
um rio de turva água passando...
tua sombra cicia à cada janela,
teu riso habita os poços;
retumbam teus passos na capela,
e ocultas-te no santuário
c'o escuridão d'um assassino.
vens das distâncias de todos os lugares...

cerro as portas e as cancelas,
ainda, atravessas, como um fantasma.

LIX

as figueiras e o alcatrão, a olaria,
e o betume, estes pábulos d’homem,
tão-somente isto, pábulos d’homem,
d’antes tão pouco, agora, tudo (;)

o horror, a sombria perspectiva
............[d’estar-se entr’engrenagens
d’um sozinho mecanismo que deixou-se a si,
............[é-nos agora toda uma verdade...

saber-se não íntegro ou uma fracção
à parte d’outras, diverso - superior, está dito -
saber-se não algo c’um perspícuo propósito,
algo c’um caminho de clara margem
..................[e douro piso, como se supunha,

despir-se d’excessivo tecido,
por haver não mais frio do que frio há...
- este frio que nos falta, vede, é tudo que éramos... -

ver-se objecto entre objectos,
ser belo com a beleza de todas as cousas,
.......................[qual jarro transparente e vazio,
n’um armazém que há muito abandonou-se (...)
(...)
dói-nos profundamente n'alma - tristemente -
esta devastação de sagrada floresta que nunca
...........................................................[houve.

LVIII

avoluma-se verdejante a azinheira,
c'os ramos e amentos, sobre fulva
.................................['infausta relva,
à margem d'imprecisa estrada,
....por onde caminha o homem (...)

n'aquele fruto encerrando-se u'a
tal precisa metafísica para que o fruto
.................................................[haja,

n'esta flor outra diligente filosofia -
...............[para qu'esta flor fenda-se,

e ao homem cabendo-lhe aind'outra
filosofia além d'estas,
..................[- e outr'inda metafísica -,

sendo-lhe o espírito sempre u'a
diversa forma da forma da flor,
ou do fruto, ou d'estrada ou da relva (...)

através d'esta paisagem vaga c'uma
...............[caixa est'entidade soturna,
a colher cousas que nunca se ajustam
...exactamente às dimensões da caixa.