são tempos escuros (...)
tempos de vitupérios,
........................[- de falsa diplomacia,
de engenharias escusas,
...............[d’urbes, e d’altiva loucura.
- de não haver certeza de que
o intelecto d'homem virá, como que
................[por qualquer belo encanto
e sobre um dourado cavalo,
.........................[a salvar o homem (...)
são tempos de haver-se não
o amparo da querência,
......................[ou a tranqüila amizade,
ou a protecção que nos oferece
...............................................[um leito,
quando do meio da estrada
vislumbra-se a fronte d’estalagem.
é-nos uma sombra a estrada,
onde se arvora um fantasma
..................................[d’estalagem (...)
(...) são tempos de infaustos terrenos,
............................[d’ásperas escarpas,
e do coração sangrento de deus
..............................[- tempos de febre,
e de púrpura morte.
‘haverá d’eldorado a aurora,
............[ou faz-se em eldorado ocaso?’
olhar janela afora faz
com que n’isto reflicta um homem...
são tempos de fúrias, de desventuras,
...............[d’ódios e de necromancias...
foi-se a ternura d’um haver-se irmão
com quem contar histórias ao redor
...........................................[do fogo.
- tombou o irmão à margem da lenha,
..............[alastrou-se pela casa o fogo,
e a história olvidou-se em silente tumba.
findaram-se no jardim as flores,
minguaram-se os sonhos e os dosséis,
dura cinza fez-se do grão que d’antes
...............................................[brotava (;)
- da leveza d’algodão restou-nos
um campo vazio, c’um solitário arado
..............................................[ao canto,
e a lembrança triste d’alguma
...............................[próspera lavoura,
incrustada na memória recôndita
...............................[dos mortos,
.................n'esguio espírito d’idos dias.
sim (.) são tempos de mortos.
........[são tempos d’inexistentes cousas,
d’espectros medonhos, vagando
p’la póstuma paisagem que se nos abre
..................................................[à janela,
d’espasmos e d’etéreas engrenagens,
d’em última instância estarem-se todos
..................................................[mortos
da vida ser à maneira d’uma ânfora vazia
...........................................[e sem ânfora,
qual se nos revela a rosa
.....[quando despe-se e não há mais rosa...
são tempos d’ liberdades d’aberta porta,
........[m’s a lanterna que encima a mesa,
não se a carrega para fora, jamais.
Poetícia Especial Fim de Ano - Poemas de Joana Well
20 horas atrás