LVII

são tempos escuros (...)
tempos de vitupérios,
........................[- de falsa diplomacia,
de engenharias escusas,
...............[d’urbes, e d’altiva loucura.

- de não haver certeza de que
o intelecto d'homem virá, como que
................[por qualquer belo encanto
e sobre um dourado cavalo,
.........................[a salvar o homem (...)

são tempos de haver-se não
o amparo da querência,
......................[ou a tranqüila amizade,
ou a protecção que nos oferece
...............................................[um leito,
quando do meio da estrada
vislumbra-se a fronte d’estalagem.

é-nos uma sombra a estrada,
onde se arvora um fantasma
..................................[d’estalagem (...)

(...) são tempos de infaustos terrenos,
............................[d’ásperas escarpas,
e do coração sangrento de deus
..............................[- tempos de febre,
e de púrpura morte.

‘haverá d’eldorado a aurora,
............[ou faz-se em eldorado ocaso?’
olhar janela afora faz
com que n’isto reflicta um homem...

são tempos de fúrias, de desventuras,
...............[d’ódios e de necromancias...

foi-se a ternura d’um haver-se irmão
com quem contar histórias ao redor
...........................................[do fogo.
- tombou o irmão à margem da lenha,
..............[alastrou-se pela casa o fogo,
e a história olvidou-se em silente tumba.

findaram-se no jardim as flores,
minguaram-se os sonhos e os dosséis,
dura cinza fez-se do grão que d’antes
...............................................[brotava (;)
- da leveza d’algodão restou-nos
um campo vazio, c’um solitário arado
..............................................[ao canto,
e a lembrança triste d’alguma
...............................[próspera lavoura,
incrustada na memória recôndita
...............................[dos mortos,
.................n'esguio espírito d’idos dias.

sim (.) são tempos de mortos.
........[são tempos d’inexistentes cousas,
d’espectros medonhos, vagando
p’la póstuma paisagem que se nos abre
..................................................[à janela,

d’espasmos e d’etéreas engrenagens,
d’em última instância estarem-se todos
..................................................[mortos
da vida ser à maneira d’uma ânfora vazia
...........................................[e sem ânfora,
qual se nos revela a rosa
.....[quando despe-se e não há mais rosa...

são tempos d’ liberdades d’aberta porta,
........[m’s a lanterna que encima a mesa,
não se a carrega para fora, jamais.

LVI

nest’habitual estância
ocultam-se alçapões
que d’homem a mão
...........[firme não abre,
c’vias para escusos
.....................[cômodos
..que a alma d’homem
..não percorre (.)

pressente-os,
..como qualquer cousa
no chão da sala,
.....[- ausente da sala...

(...)

e debaixo sempre
..........[d’outra alfombra
que não a que se alça (.)

LV

por sobre os nenúfares inquietos,
..........[ainda inquietos nenúfares;
para além da vastidão titânica,
................[ainda titânica vastidão.

LIV

n'uma ínfima membrana
...................[de dália folha,
n'uma só fibra de dália raiz,

- na mínima verd'alva fracção
....................[de carne dália -,

é tanto o trêfego labor,
e tanta a dispendiosa lida (...)

tão bruta a alíquota turba
......................[d'assíduas bestas
crispando-se-lhe n'espaço
.................................[profundo,

c'o intuito de sustentar-se
e firmar-se no magnéctico
....[busto do tempo q'anda,

co'a forma de pequeno corpo
............[que pende da relva (...)

repousa jamais,
.......est'álgebra e'nfinita flor.

LIII

n'esta escassa parte
d'espaço conhecida
..........................[d'homem

é-se a casa que se constrói,
.[- enquanto se a constrói -,
e o domo que se edifica,
.[- enquanto se o edifica (.)

separa-se não do inquilino
......[a confecção do quarto,
aparta-se não do alienado
......[a erupção do muro (;)

e é o movimento d'operário
..o único aspecto da fábrica (.)

LII

meneia o centeio,
ao levantar-se o
..........................[vento,
recôndito edifício
de doura estética
..........[e branda pele (...)

habita-o mui próprio
.................[deus (.)
.....est’algo que o permite,
que co’este edifício nasce,
........não lhe sobrevive (;)

à parte mesmo do campo,
brota e fenece
.........[- grão e deus e tez -,

servo do que
...................[lhe é escravo.

LI

absorve-me em estranha
.....................[lucubração
a doura imagem d’um
.....................[crisântemo,

e exaure, nunca houvera (;)
n’outro momento, esplendoroso
.....................[ressurge

constante fosse n’alma,
diversa cousa que não vapor
d’outra medonha e póstuma
....................................[linfa (.)

associar-se, apartar-se,
associar-se outrossim,
e outrossim apartar-se,

o corvo trono do corvo
e do crisântemo alavanca,
......................[fulcro, e eixo (;)

n’tal singular mecânica
cósmica, metafísica outra
não há,
.....................[além d’esta:

posta a possibilidade,
....[deve-se, consuma-se.

O Homem Aprisionado

n’outono queda-se púrpura o lago
e passeio-me o corpo à beira,

um grãozinho do cardamomo
......................................[à boca,
juntamente com um de café,

e, n’esta e n’outras disposições
...................................[d’espírito,
um tal sentido é o único que encontro
...................................[na vida (.)

por vezes penso no preciso ir-se d’um
ou d’outro lenhador que passa,

sempre sabendo exactamente
onde se encontra a exact’árvore
.............................[que lhe cabe,

ou no dobrar-se d’uma ou d'outra
lavadeira à margem do lago,

seguramente devota do profundo
significado de mover-se-lhe
.....................[perenemente o lago...

(...)

é-me tão claro que este,
..............[- ou aquele - homem
que cruza a estrada co'a lenha,
...................................[às costas
jamais desconhece,
por um momento que seja,
o paradeiro d’árvore que busca,

e nenhuma dentre as lavadeiras,
ignora o motivo de moverem-se
...................................[as margens,
e o significado de haver-se água
.....................................[no mundo.

há sempre tanto sentido na vida d’outros,
e tão pouco na minha...

não saber onde se ergue a árvore,
nem o significado de moverem-se
.......................................[as águas
põe-me ao ermo,

faz-me triste,
faz com que eu sinta saudades
...d'uma casa que não me existe (;)

unicamente andar,
unicamente contemplar o lago
que se estabelece em púrpura
...............................[n'outono

e fazê-lo mascando um grãozinho
de café sobr'outro de cardamomo,
..............................[como faço eu,

é-me, mo perdoem os deuses, pouco,
.................
qualquer vaga sensacção de masmorra,
........[c'o esquivo contorno d'um chifre.

L

d’um homem o intelecto,
fundição de cúrcuma e malvásia,

d’açafrão e mosto usinagem
à prensa dura jungido,

electrica evidência
que n’uma configuração
.......................[específica de pó

alguma retenção do movimento
..............................[[d’antes
por instante breve pode-se,

e isto é memória,
e isto unicamente evidencia-se,

e desfaz-se, curta, sob influência
...........................[de provecta lei
que ceifa o oculto c’oculto toque,

qual tensão d’um taraxaco
alivia-se à brisa que passa,
...........[sem que se a veja (.)

se um julga a memória e o encéfalo
.....[uma única e venerável estética,

c’o fundamento derradeiro
..........................[do kosmos
à glia somente simultâneo,

qu’olhe a terra revolvida
...............[em que a laranja tomba,

e isto basta.

Mantra

hare krisna
hare krisna
krisna krisna
hare hare

hare i.e.soús
hare i.e.soús
i.e.soús i.e.soús
hare hare

hare mohammad
hare mohammad
mohammad mohammad
hare hare

hare
(vishnu)
...........((yaweh)
...........[(allah)

kant kant
kant kant
kant kant
kant kant

harehegelharehegel
hegelhareharehegel

nietzsche hare
nietzche hare
hare hare
nietzsche nietzsche

prometeus
prometeus hare

(.) hare
aristotélēs

h are
copernicus
newton har e
(,)

h ..a.. r.. e
......ddalton
bohr
.........h) ...a.... r... e

heisenberg
a
......h
...........e
....................r

( )

Provérbios (XIX, XX)

o excelso vê nas fezes, tâmara;
o espúrio vê na tâmara, fezes.

tudo faz pleno sentido àquele
que compreendeu cousa nenhuma.

Provérbios (XVII, XVIII)

para o dourado n'um aquário o tubarão
..
[é tão-somente um mito inverossímil.

o tolo teme o punhal; o sábio de bom grado
...............................[fende a própria carne.

XLIX

(.) à vista de nascer-se a açucena,
onde d’antes silenciava a vaga,

e crepuscular-se a berinjela,
pelo tomilho luzente suplantada

um supõe estranhas cousas
ao sistema metafísico em actividade,

e d’um pressentimento de equívoco
em tardo desfecho é acometido;

pois que o movimento d’um fóton
é hostil à possibilidade d’uma perene alma,

e o passeio d’um bóson é,
ao eterno espírito, uma lança adversa;

quiçá seja o espírito uma configuração
vária da matéria, tão somente, qu’amanhã
..........................[volta à pedra, e à greda,

e n’este confuso fenômeno
- dispor de fria operação d’intelecto
........................[em corpo dançante -

o sonho do filósofo
perpetue-se não no espírito, que se vai,
...................[mas na carne que se queda.

Provérbios (XIII, XIV, XV, XVI)

o capital é um pássaro de quatro asas.

com frequência as soluções mais engenhosas
................[vêm de problemas que inexistem.

nas calamidades, uma pequena prece pode
salvar-nos a alma; um pequeno cálculo, a pele.

é bom aquele cuja tumba abre-se.

XLVIII

no grave ermo das cousas
há não um cascalho de paz,

ou’ma partícula de calma;
perpétuo movimento

d’alguma escusa prensa cunha
.......................................[a flor
na face da malva, como efígie
................[n’uma rude moeda,

pistão trespassa em trabalho
a lenha, e o êmbolo (...) o êmbolo

inflama c'ímpeto o universo
hasta o destino fulgurante
.............................[d’um álamo,

ou margem de retumbante e solene
.............................[cascata,
no múltiplo peito demônio
.............................[d’alma floresta;

ao tempo que estagna frio
à quimera etérea do leito,

cada cousa desperta, simulacro
....................................[diverso
d’uma mesma implacável face (...)

awe, tamanho horror, e loucura
d’este vórtice,

calabouço d’esqueleto firme,
d’onde nem mesmo o morto
...........................[ausenta-se.

Provérbios (IX,X, XI, XII)

a raposa vence o tigre exaltando o cordeiro.

o cervo que dança sobre o leão morto assombra
..................................[o tolo e entretém o sábio.

sem préstimo a peça, supérflua a precisão do torno.

deus é a mais sublime perversão.

XLVII

no vale ermo e sombrio,
onde desliza púrpura a névoa,

ao lado da escarpa alta
q’o coração aflige (,)

a plúmbe’alma alvorece
não o pássaro

e o horror esgueira-se vil
sobre a ausência da relva (.)

n’esta paragem derradeira
não sou o que sabe o paradeiro

da flor (;)
à densa e rósea plenitude

guia-me viva e obscura
mão que não de carne (,)

firme e recta fortaleza
que não de éter (.)

tomo-a (;) quer-la clara,
ainda que podre, o kosmos.

XLVI

há possibilidade no cosmo vasto
de que eu coma uma noz sem que eu sinta fome,
sem que haja razão para fazê-lo
exceto a de que existe a possibilidade d'isto ser feito.
um tal fato reveste-se da mais alta importância.
enquanto for possível a um homem comer uma noz
sem que sinta fome, sem que haja razão para fazê-lo
exceto a de que existe a possibilidade d'isto ser feito,
não haverá uma única verdade no mundo.

O Pio Rogo

queda-te conosco (.)

viver-se não nos diz
respeito, córrego
de flama no escuro
peixe (,) púrpura

serpente de língua
comendo-a o braço (,)

insecto espreitando a rua
noturna, com pleura de
ouro (.) viver-se (,)
isto não nos diz respeito.

não é o sono (,) ou
a dádiva d'uma lanterna,
foi-nos não dado o túmido
coração n’uma algibeira,

ou a tíbia n’uma
caixa, ou a carne que
sem legado foi-nos
a tripa e a noz (;)

faz-se víscera deste aço,
daquela boca, cancro,
opróbrio desta lâmpada
e hiena deste espírito (,)

n'algum tempo, afora (.)

quando do crânio
escorre o fóton, queda-te
conosco (,)
e tende não medo,

fertedrerio,
fertedrerio (.)

no bojo frio da antiga casa
a pomba como a vela
acende-se - cerra um olho
o monstro que jaz profundo (,)

entretanto (,)
importa-nos não, isto.

queda-te (.)

(...)

O Homem Esquivo

sói-me, por vezes, reflectir
distante do convívio turvo dos homens,

ao lado da folhagem rubra do bordo,
contemplando-a sem contemplá-la verdadeiramente;

quando isto se dá, nestes momentos de perplexa morte,
é-me qualquer guerra uma pequena cousa,

e são-me os outros como que uma confusão
estranha n’alma, tão somente.

sobe esta aragem que neste momento sobe,
e alguma semelhança há entre o que sou agora

e o pequeno ramo do bordo ao lado,
que a aragem afasta levemente dos demais.

pressinto cousa em estar-se longe
que se estando perto não há,

fruto que não se come
na companhia d’outros,

fruto para uma mais profunda fome,
de nenhum a fome, conquanto de todos;

mas, ainda, é-me obscuro defini-lo,
a este fruto, e divisá-la, a esta fome.

estando-se só, impreciso, reflectindo,
há uma compreensão obscura do mundo,

d’algo que por mais distante que se vá por terra
mais distante por terra parece,

como se andasse o rubro bordo ao norte e ao sul
à procura de uma primavera que ansiando desconhece,

por algum equívoco sempre outono lhe sendo,
ao sul e ao norte;

precisamente hoje, sinto-me sozinho
como d’antes nunca, com o corpo recôndito,

minh’alma vasta como alguma fria sala
onde é triste a permanência,

sabendo como que de uma imensa chaga que neste concreto
arde sem que se saiba da chaga o paradeiro.

“como andasse o rubro bordo...
...ao sul e ao norte.” (;)

mas move-se não o rubro bordo,
irrompe-me à fronte, rubro ainda, e

(...acontecem serenamente as maiores cousas)

uma única folha verde brotando-lhe acima,
contudo;

sim, ali está, ei-la,
como um halo ao dorso de algum touro sangrento,

e contém meu pensamento o valor de um soldado morto,

e jamais doeu-me a alma,
e estes versos sequer nasceram.