O Homem Pleno
desta água limpa e deste
pequeno sol de amarela peônia.
o cipreste cresce e é verde,
e quiçá cada dia contemplá-lo-á
um mais duro cenho,
mas cresce o cipreste,
.......................................[e é verde.
bebei deste púcaro,
desta água limpa,
do prateado setembro,
deste amargo sangue de asa;
do campo perene bebei,
e também da guerra.
é preciso prosperar,
é preciso ir avante,
é preciso que descanse o tardo filho,
que se conduza a doura flor ao morto,
que se despreze o peito falho do velho,
que se sepulte a seca carne da mãe,
e que se traga o escravo torto às costas.
é preciso ser forte.
um inteiro manancial, esta violeta,
..............um açude, aquela estrela,
......uma cachoeira bruta a galáxia,
...d'onde vaza o peixe morno
à sombra da quieta macieira.
o sol é muito,
e é preciso ver.
ser-vos-á esta manhã
..........................[um berilo nu,
pousar-vos-á ao ombro
.............[um eléctrico besouro,
e a tarde será suave,
e será todo um mundo,
tão mais vasto
quanto menor
a chaga d’alma.
este rio, percorrendo (...)
a véspera do caracol lábio,
.....vêde que a nenhum lugar vai,
e no entanto, quão exacto chega.
é preciso crer.
bebei deste púcaro, ei-lo,
bebei desta rosa,
bebei deste cedro,
deste grilo bebei,
e tudo ser-vos-á
qualquer aurora serena
de haver um norte.
jamais uma dura verdade,
........................................[jamais,
e calar-se sempre
nas importantes horas;
dançar-se,
qual flama que come a casa
........................................[fulgura.
olvidar-se do tigre que jaz
à noite
e da insone aura do cravo;
e ai de vós,
pesasse-vos o fruto no ventre,
ou retumbasse qualquer grito
..............de condenado à mesa,
o olho galopando, frio cavalo,
........................distância afora,
ai de vós.
bebei deste púcaro
sem o grito,
sem a náusea,
sem febre ou fuga;
................é tudo tão belo,
e é tão preciso nascer-se.
O Homem de Letras
é nada...
a verdade é supérflua,
o trabalho é supérfluo,
é supérflua a beleza,
negra pantera
na noite profunda;
escrever...
no quarto arderá o cigarro
e o peito,
acender-se-á a lâmpada da veia...
um galho novo crescerá entre os ramos
da prateada hera,
tossir-se-á
um catarro,
e isto será tudo.
o essencial
não concebe palavra.
no entanto,
brota-me
a consequência
de um verso,
pequena flor
de ferro,
à porta fria da indústria.
XLV
o dulcíssimo
arroubo do pleno
vinhedo ...
... toca-me não ...
... e através das primaveras
como que remoto
vou-me.
vou-me
sem dos deuses
o enlevo,
sem o leve oscilar-se
de um lado ao outro,
a ambos pertencendo
entretanto;
sem que meu ir-se seja bom
e venerável,
como tudo
à maneira dos deuses,
mas espúrio;
vou-me duro,
dos lados
esquivando-me
por ser áspero
o fenecer dos lados;
vou-me, breve das partes,
sem conhecer das partes
a polpa devida;
vou-me como quem
não redige uma carta
por ser triste
remetê-la,
ao fim ...
... das primaveras
o pouco ...
... sendo para as
cousas uma distância
que não merecem
as cousas,
hortulana
que por entre as vinhas
se move,
às uvas alheia.
O Parto
apodreces,
a premir
a pura pasta
à posteridade;
pêndulo prazer,
pesar pêndulo,
pesar pêndulo prazer,
por fim;
a polpa prístina,
a perpétua porta,
e o peito, porto
à parca parte;
ó pêra, apodreces,
porém,
no poço do pulso
o pulso perpetua-se,
ampulheta.
XLIV
move-se a natureza,
vasta e profunda abstração,
à plenitude.
na iminência de partir-se
da companhia do campo,
faz-se luz no que d’antes
era turvo trigo
e na fosca rosa que d’antes era
fulge o relâmpago.
a desventura resplandece
......................................[breve,
tal flama no ninho do tordo.
O Campo (Revisited)
o pasto cresce e é o pasto, e é suave.
mas a natureza do pasto é a de ser suave,
e a minha natureza é a de ser rude,
agressivo e furioso;
os homens que buscam assemelhar-se ao pasto,
que buscam o crescer no campo tranqüilo,
estes parecem-me tão tristes, minha irmã...
não lhes é da natureza o crescer no campo
sobre os ombros das tempestades mornas e trançadas,
mas sim cousa outra,
que é estar de acordo com a natureza dos homens,
e ser o que o coração adverte,
tão somente.
tenho não de ser o campo,
mas devastar o campo,
porque assim se me afigura que devo,
porque mo ordenam os dias,
sem que para mim nisto haja significado,
ao menos não que o saiba.
ando, por isso, em paz comigo
e com minha natureza.
"pensar em devastar campos por nada é criminoso”,
disseste mais de uma vez.
ah!, ninguém pode dizer o que é ou não criminoso
entre os homens sem conhecer dos homens
a finalidade no cosmo vasto,
na ordem escusa do universo,
porque a partir da finalidade sabe-se o que é bom e mau,
já que o que é bom aproxima da finalidade,
e o que é mau, afasta.
mas desconhece-se o porquê de um homem,
da mesma maneira que se desconhece
o porquê de uma brisa ou dos hemerocales,
e dessa maneira não há utilidade nos salmos teus noturnos,
exceto que vivem e são belos,
e mais nenhuma cousa.
sim, sou furioso, agressivo e rude,
devastador de campos,
mas ainda capaz da beleza;
de produzir minha própria beleza
e de apreciar outras belezas distantes ainda,
como o topo roxo de um cogumelo
ou a caixa sóbria de deus que é teu noturno salmo.
aceito meu destino de ser rude, agressivo e furioso,
como uma mulher feia e grande decide ser bela
por razão de existir simplesmente,
porque é belo o existir,
ou como decidisse pela morte quente,
porque também é belo o não existir,
a mãe e o berço dos girassóis velhos,
dos campos tristes pelos quais me incriminas,
do trigo calado
e de todo o mais que tu e eu percebemos
enquanto passeávamos ainda hoje pela manhã,
debaixo do sol que ardia próximo demais
para que se percebessem as verdades e as mentiras
no discurso da terra.
tu pensas ser a exatidão do gato ao lado,
mas não, minha irmã;
conheço-te como tu não te conheces,
do modo que tu odeias que eu te conheça;
conheço-te de um ponto além do céu azul e caiado,
que verte secura e morbidez sobre
teus cabelos e crânios desnudos;
de um ponto além do sair-se de casa
e do viver-se e morrer-se um pouco mais longe;
de um ponto além das maneiras dos universos
e dos casamentos felizes;
conheço-te de onde eu não sou mesmo sendo,
de onde não sei conhecer-te,
e de onde tudo isso não tem importância alguma.
XLIII
haver no mundo
beleza mais
que d’antes
beleza havia,
mas falsa beleza;
luz que incide
sobre clara
superfície de rio,
algo fazendo
por detrás do lótus
com do lótus a forma,
e um abismo por alma.
ah...!
o espírito vão
a falácia ocupa.
tu, rubra libélula
pousando-me
à janela aberta -
e hóspede;
soubesse-te não,
cerrar-me-ias
por dentro,
amor.
XLII
assim tenho sido,
através de meus dias
de manga corcunda,
n’uma sacra palidez
de curvo revólver, tenho sido.
indolente demais para um bem sequer,
por demais leviano para o mínimo mal;
eu, aqui e ali escorrido,
sem mover-me
para nenhuma coisa,
frio, em frieza de ânfora
há muito partida,
de ânfora olvidada n’um canto
qualquer da casa,
que uma velha criada deixa estar
sem que haja para isso
razão alguma aparente.
XLI
deixai-me morto.
morre-se algo,
morto deve esse algo estar,
e não vivo.
deixai-me, como deixais
o termo da estéril sequóia
no abismo secreto d'uma floresta;
vede que a secura dos galhos
da finada e apodrecida sequóia não mais é
o que era a outrora intensa sequóia,
é somente a secura dos galhos
da apodrecida e finada sequóia.
meus versos, estes também
hão de morrer comigo,
porque todo verso é seiva
e não há sentido na seiva,
vai-se o tronco.
ficará da sequóia alguma sombria aridez
nos restos definhados que guarda
o abismo secreto d’uma floresta;
ficará de mim a mesma sombria aridez,
nos restos outrossim definhados
que diverso abismo secreto guarda.
mas o tempo anela-se também
sobre restos e secretos abismos.
ao fim,
nem mesmo
esta alguma sombria aridez
fica.
XL
cálice à mão
pela mão cedido;
e fendido o cálice,
acolhe-se os cacos;
de frágil mel,
bruto sangue faz-se.
ao ferido olho;
mel é rubro
ao que teme o ouro;
e florir-se a rosa
no fundo da cova
não basta.
XXXIX
não há tristeza em morrer-se.
um encantamento bonito,
um surgir-se, à fronte
do carvalho, como que
por milagre, uma dríade,
sendo bela e extravagante
dríade, tão somente;
é o encantamento
sobre o encantamento,
é tomar da dríade o peito
e ordenar: ‘move-te!’
e mover-se a dríade,
com a graça suave
que lhe cabe.
como é belo o ir-se adiante a dríade
à secura do carvalho tronco
enfim;
n’outra distância despeja a flor, e a relva.
XXXVIII
quando d’universo
estende-se-me
o fruto à mão que
à boca o leva,
escorrendo sangue brando
ao lábio que o tempo
permite;
pendendo d’universo
o negro ramo
que dissolve e fica,
conquanto nunca quedando.
se crendo não em elfos
reflexo d’elfo avistasse
à margem clara
d’um rio,
que levanta brisa
e com o do rio
movimento suave,
e não havendo,
sendo e não sendo,
tácita
qualquer
verdade,
Primavera (Revisited)
Eu sou aquele que perdeu o apetite à mesa.
Aquele a quem não mais interessa o beijo dourado das rugas da tâmara seca,
Ou os dedos verdes das oliveiras maduras.
Sou aquele a quem a matéria macia do damasco fresco enoja,
Aquele que dispensa a amizade dos glutões inveterados,
E que não mais ri das pilhérias sobre gansos tristes e bois antigos.
Sou aquele que perdeu a graça dos dias em algum dos dias passados,
Que ousou fartar-se do vento perdido, que dobra a árvore no fim do deserto.
Sou aquele que rompeu o caule, esperançoso que vivesse a coroa rubra da rosa
Sem o garfo e a colher do caule.
Eu, o murcho de passado glorioso, que cuspiu nas cabeças dos homens do cimo de uma montanha,
A julgar-se livre da terra, e que agora é escarnecido pelos homens;
O estragado pelas crinas longas do tempo que habita a casa com as portas sempre abertas para o tempo;
O abandonado no claustro que é os restos do que se ama no mundo.
Sou aquele sentado na poltrona puída, e a quem não mais importa a poltrona ser ou não puída.
Sou aquele cujo coração indolente vacila na noite morna e
Cujo pulmão miserável hesita na borda da caixa aberta da primavera.
Eu sou aquele que perdeu o apetite à mesa.
Sou aquele que morreu, pouco a pouco,
Nu e sozinho.
A Caixa, III (Revisited)
Por vezes me ocorre que tenho pensamentos únicos e vozes
Que me são próprias.
Mas se assim fosse,
Da mesma maneira teria o rio que vejo pensamentos únicos e vozes próprias,
E figurariam meus pensamentos e vozes diferentes dos pensamentos e vozes do rio.
Para que isso se desse,
Seria preciso que tudo na natureza discordasse de tudo na natureza;
Seria preciso que não houvesse tal coisa como uma natureza
Da qual fizessem parte eu e os rios, e todo o resto das coisas.
Contudo, é meu igual o rio em cada particularidade
Do que na natureza se pensa e se sussurra,
Porque todo pensamento é uma exigência,
E toda voz é uma união.
O pensamento do rio é ir-se para baixo sempre,
E também meu pensamento é ir-se sempre para baixo.
O sussurro do rio é o rio descer e haver outras coisas
Ao redor do rio;
Do mesmo modo,
Sussurro porque passo.
XXXVII
sem leveza
de folha,
sem verdura
de folha,
sem de folha
fúlgida veia,
de secando raiz,
báratro olho
de folha,
cousa-folha,
à maneira das cousas,
cousa nenhuma sendo;
o tronco espreitando,
formar-se tronco,
sustentar-se breve,
a folha caindo
e sendo isto a razão
de suceder-se infinita;
fugaz,
qualquer
tensa convulsão,
entranha vinda,
e duro ímpeto,
crua e morta
esperança,
silente do peito.
Provérbios (II, III, IV)
casam venturosamente asno e papagaio.
o jumento monta, o homem empaca.