XXXVI

mais belo e mais vivo
o que antes veio e foi
do que o que agora escorre
pelos lábios da aberta janela,
sobre os dentes debruçando-me;

são mais belas coisas
as mais ausentes coisas,
e é tudo tão mais vivo
quando há muito se morreu tudo;

quanto mais a noite dorme,
mais bela fulge a noite;
quanto mais a flor era,
mais é a flor.

A Caixa, II (Revisited)

Haver deus no mundo, diz-se, é supor-se por detrás das coisas
O contrário das coisas.
É adivinhar-se por detrás da tâmara enrugada a não tâmara enrugada,
Por detrás do vento inconstante o não vento inconstante;
Haver deus no mundo é supor-se necessário o contrário do mundo
Para que haja a possibilidade do mundo.
Mas se as coisas do mundo são as coisas do mundo com contrário,
Se a natureza do mundo é o mundo e o não mundo,
Se uma tâmara enrugada é também a não tâmara enrugada
E ao vento inconstante é preciso o não vento inconstante
Para que vento inconstante o seja,
Dessa maneira deus haveria de ser coisa outra além dos contrários
De tudo o que existe,
Haveria de ser outra coisa além do que existe e do que não existe,
Do que há e do que não há,
Opor-se-ia tanto ao ser quanto ao não ser do cosmo vasto.
Deus, nesse caso, estaria fora do universo e da ordem do universo,
Sem poder ser causa ou conseqüência ou função de coisa alguma;
Seria inútil, e, por conseguinte, impossível ao cosmo vasto,
Como uma árvore à parte dos frutos,
E coisa nenhuma que caminha pelos prados mornos e bosques verdes
Poderia, de maneira alguma, sequer supô-lo.

A Caixa, I (Revisited)

Ao universo é impossível que eu não haja,
Como é ao universo impossível a ausência
D’algum movimento complexo,
Ou d’algum não-movimento complexo
A ausência.

Isto porque tanto o movimento complexo,
O não-movimento também complexo
E o haver-me
É o existir do universo tal qual existe, universo,
Com o começo e o fim
E o meio.

Sou imposto ao universo que pulsa
Pelo próprio universo que pulsa,
Porque as leis que o formulam
O são;

Não há lei sem algo que possa cumpri-la,
Já que desse modo não haveria lei.
E não houvesse lei,
Não haveria algo que pudesse cumpri-la.

Minha matéria é a carne incandescente
Do universo pleno de carne,
Como é a carne incandescente do pleno
De carne universo o tempo e o espaço
E o nada.

Sou a carne forte do universo
E a lei que faz pulsar o universo, igualmente.
Existo, e para o universo não há modo
De escapar ao existir-me.

Não existir-me seria o mesmo que não poder
Existir a verdade do universo,
Ou do universo a mentira;

Seria o mesmo que ser o universo a impossibilidade
De haver universo.

Não existir-me seria o equivalente a não poder existir
Sequer nada.

O Homem Esquecido (Revisited)

O que sou hoje me é um mistério...

Há uma lida qualquer que desconheço
E é-me imperativa essa lida,
Como é imperativo ao peito o abrir-se do peito
A tampa forte, e o sangrar do peito aberto;

O que sou hoje é o estar na rua,
Vagando curioso entre as soleiras fechadas
De casas alheias, trazendo nas costas
Uma inteira e pesada casa que não vejo
E em mãos uma flor leve e pequena,
Recordando um vago campo
Que jaz no interior d'alguma distância,
Sabendo em reza estranha que a flor que trago
Não é bem a flor que trago, nem bem não o é,
Sentindo profunda inquietação com tudo isso,
E um breve e impróprio contentamento.

XXXV

do condenado
a mão o fruto
atinge, c‘o
vizinho silêncio;

a triste permanência
do fruto
aos que se vão,

duro pão,

com a dureza do pão
q'é alheio;

fruto e estranha coisa
que é fruto,
do exílio laborioso
d’antes do fruto...

.................................
.................................
.................................

...ao fruto fim.

finda-se não o universo,
senão a beleza do universo.

há,
contudo,
ao expiro d’homem,

tanto mais eternidade
no fruto
quanto mais n’homem
finitude,

como permanecesse
mesmo sendo
breve espasmo,

romper-se de semente,
em húmido solo útero,
à exuberante falácia,

quiçá justamente
por exuberância,

falácia.

Provérbios (I)

antes do cristo, o cão.

Reflexão

para um homem
manter-se puro

basta

que nunca leve
suas crenças
tão a sério

a ponto
de acreditar
nelas.

XXXIV

amai
as coisas do mundo
amai

eis
a lei,
eis
o mandamento,
eis.

amai
o verbo
útero da peste,

a ceifa
crua
do verme,

o desvio
imemorial
do corvo,

a tumba
que é o nome
e ao fim nem isso,

amai;

amai
as coisas do mundo
amai

findo
o trigo,
amai a gruta;

podre
a rosa,
amai o cravo;

amai o grito,
murcho o olho.

crede não
nas coisas
do mundo;

amai.

lavai
do touro
o chifre,

lambei
da hiena
a pata,

da terra
o escarro,

bebei.

a náusea
sede;

iod


e nova
luz fria,

hê,

feto roto,
contra naturam.

O Homem Equivocado (Revisited)

Fraquejo.
Desfaleço.
Eis a minha verdade mais verdadeira.
O mundo que se me apresenta não é a idéia que faço do mundo,
E tudo se esforça para me fazer crer que sou por inteiro uma falsidade,
Ainda estando eu aqui, e sabendo-me a caminhar pelas avenidas,
Com outra idéia que não a do mundo que se me apresenta.

Sou hoje um pequeno vazio.
Um terreno abandonado ao lado de alguma casa
Onde se festeja algo que certamente merece o festejo;
Mas não sou motivo de festejo em nenhumas partes;
Sou, sim, motivo de partir quem quer que nas partes que chego encontra-se;

‘Eis o crânio oco’, pensam aqueles de quem me aproximo,
E fico ali, observando partir-se quem isso pensou quando da minha chegada,
Em silêncio sabendo de tudo, em silêncio o peito rasgado,
Em silêncio esperando que olhem pelo menos uma vez para trás
E mirem-me na direção em que estou,
Sozinho e distante dos outros pelos passos dos outros.

Fraquejo.
Desfaleço.
Cada vez que chego n'uma esquina
Sei que em outra devo estar,
Mesmo quando essa me apraz melhor por estar cheia,
E com as pessoas ser bom o convívio.

Ah, que bom seria ser eu muitos, e diferentes, e separados um do outro...

Um para sentar-se à mesa cheia e fazer gracejos,
Fazer rir a quem quer que lá sentado esteja.
Fazer com que sintam boa minha calma e cotidiana presença;

Outro para todas as esquinas onde existam homens,
A observar as coisas que passam,
Voltado o rosto na mesma direção dos rostos d’outros;

Outro ainda, esse sim sozinho e desprotegido do universo,
Longe de todos, e satisfeito por isso.
O que não comunica o que sabe incomunicável;

Ah! Fosse eu todos esses em separado
Minha
vida seria uma aventura alegre;
Mas sou todos em um e há em mim constante guerreio,
E não consigo separar-me nas horas próprias.

À mesa sou o que olha na direção da esquina,
E mostra aos da mesa o que passa na esquina,
E fitam-me pasmos com os bois à boca.

Nas esquinas sou o que está sozinho no universo
Comunicando tudo a quem quer que seja,
E reprovam-me com as mãos agitadas e as vozes ásperas.

E quando sozinho e do universo desprotegido
Sou o que faz gracejos que ninguém escuta,
E eis-me, um equívoco triste e infeliz n’um canto.

E por isso dói ver-me ungido de uma solidão profunda
Entre tudo e todos os festejos;

E minha esperança é uma escada pesada
N'um campo plano e desarvorado.

XXXIII

a aveleira
o fruto pequeno
erguendo,

a semente
jazendo viva
em eterna e úmida
noite,

pulsando
entre dura casca
de lenha vincada
e casca dura
de vincada lenha,

pressentisse na
brandura
que lhe coube
qualquer culpa
que não bem compreende,

em seu desamparo
de coisa
havendo só
entre os meios
lúgubres do mundo;

é-me tudo isto,

o fruto,
a semente,
o óleo e os ramos,

uma tão profunda verdade
que, tendo-a em mãos,

à gema profusa
do tempo escorrendo,

sucede-me
qualquer estranheza
de haver deus
onde não deus há,

fosse
a cabeça nua
de um mistério
à mesa trazida

para o deleite
impreciso
de um cego.

XXXII

outubro;

o vagar
da bromélia
e é outubro
outubro,

bromélia
bromélia,

a selva fulge,

acendem-se
os lírios,
o sono
dos plátanos,
o sol
de outubro,
a sombra do
cravo sobre
o banquete,

o celebrar-se
cadáveres
com cadáveres,

a história,
a humanidade,
o fogo;

o fogo.

verbo morto de
todos os destinos,

o fogo;

encerrado
no fruto,
no grito,

o fogo;

na casa,

no sacrifício
do crânio torto
da criança;

nos reis e no vento,
no sal e na terra,

na áfrica,
o fogo,

no sustentar-se
da oliveira
sobre o peito do cosmo,

o fogo,

nu e pleno
em outubro,

de outubro,

ardendo solene,

o fogo,

crepitando mórbido,

o fogo,

profundo,
selvagem,

implacável.

Sínteses I

nietzsche:
deus é o diabo na terra do sol.

XXXI

se sou poeta,
que grande merda
é ser poeta.

não me há êxtase,
inspiração,
sopro,
espírito,
graça,
nem nada do tipo.

desse sangue,
são-me os coágulos;

o medo,
a hipocondria,
a morte,
o desespero
e talvez
alguma megalomania.

nunca
um verso sem náusea,
nunca.

a julgar pela
minha experiência
com a musa,
a musa é uma farsa,
e a poesia uma impostura;

quando um poeta,
de tão sublime,
consegue também ludibriar-se,
temos aí um gênio.

quanto a mim,
escrevo unicamente
para ficar entorpecido
por alguns minutos,
sei-o,
e é tudo.

os deuses só
me são deuses

no escuro.

XXX

amo-te
com o amor que me é,

com o amor estranho
dos tristes,

com o amor que sei
amor unicamente por
haver, além de ti,
tão só uma
vaga tristeza
e uma solidão
dura,

como se à noite,

na beira d’um rio
jazendo,
o espírito
vazio,

olhasse
alguma mistura esquiva
de mato e cosmo,
parecendo
esquiva mistura
de mato e cosmo,
mas sendo outra lúgubre
coisa;

talvez
seja esse o amor dos brutos
e covardes;

mas haverá qualquer
singeleza outra
que não
ser o que se ama
um muro
e uma morte?

ah...!

o sabe outro.

talvez para mim
não haja nada mais
gracioso que,

como uma aninga,

erguer-me áspero
e tosco
e por toda uma vida
confinado
a uma moeda de terra,

contorcendo-me
forte
por alguma dor
que não tem nome,

tudo para que
acima,
por entre
as folhas feias
e de um verde agreste,
possa florescer,
de quando em quando,
uma solitária flor
branca

que não se vê
estando-se ao lado,

até que n’algum momento
desfalece,

e cai.

Algo Concreto

O político:
Áporo
Apocalíptico.