Fraquejo.
Desfaleço.
Eis a minha verdade mais verdadeira.
O mundo que se me apresenta não é a idéia que faço do mundo,
E tudo se esforça para me fazer crer que sou por inteiro uma falsidade,
Ainda estando eu aqui, e sabendo-me a caminhar pelas avenidas,
Com outra idéia que não a do mundo que se me apresenta.
Sou hoje um pequeno vazio.
Um terreno abandonado ao lado de alguma casa
Onde se festeja algo que certamente merece o festejo;
Mas não sou motivo de festejo em nenhumas partes;
Sou, sim, motivo de partir quem quer que nas partes que chego encontra-se;
‘Eis o crânio oco’, pensam aqueles de quem me aproximo,
E fico ali, observando partir-se quem isso pensou quando da minha chegada,
Em silêncio sabendo de tudo, em silêncio o peito rasgado,
Em silêncio esperando que olhem pelo menos uma vez para trás
E mirem-me na direção em que estou,
Sozinho e distante dos outros pelos passos dos outros.
Fraquejo.
Desfaleço.
Cada vez que chego n'uma esquina
Sei que em outra devo estar,
Mesmo quando essa me apraz melhor por estar cheia,
E com as pessoas ser bom o convívio.
Ah, que bom seria ser eu muitos, e diferentes, e separados um do outro...
Um para sentar-se à mesa cheia e fazer gracejos,
Fazer rir a quem quer que lá sentado esteja.
Fazer com que sintam boa minha calma e cotidiana presença;
Outro para todas as esquinas onde existam homens,
A observar as coisas que passam,
Voltado o rosto na mesma direção dos rostos d’outros;
Outro ainda, esse sim sozinho e desprotegido do universo,
Longe de todos, e satisfeito por isso.
O que não comunica o que sabe incomunicável;
Ah! Fosse eu todos esses em separado
Minha vida seria uma aventura alegre;
Mas sou todos em um e há em mim constante guerreio,
E não consigo separar-me nas horas próprias.
À mesa sou o que olha na direção da esquina,
E mostra aos da mesa o que passa na esquina,
E fitam-me pasmos com os bois à boca.
Nas esquinas sou o que está sozinho no universo
Comunicando tudo a quem quer que seja,
E reprovam-me com as mãos agitadas e as vozes ásperas.
E quando sozinho e do universo desprotegido
Sou o que faz gracejos que ninguém escuta,
E eis-me, um equívoco triste e infeliz n’um canto.
E por isso dói ver-me ungido de uma solidão profunda
Entre tudo e todos os festejos;
E minha esperança é uma escada pesada
N'um campo plano e desarvorado.