Interlúdio

Não há beleza no ofício de ser poeta,
Tampouco no de ser físico.
É grande o poeta, como é grande o físico,
Tão somente enquanto coisas da natureza.

Dizer aos outros homens
“Eis a árvore verde que derrama as flores”
E compara-la ao cântaro que transborda
É tão vulgar quanto explicar a árvore
E não compará-la a coisa alguma,
Nem com outra árvore.

Cantar ou explicar as coisas é saber-se sozinho e insuficiente,
Do contrário, não haveria razão para cantar ou explicar as coisas.

A enfermidade do poeta,
Bem como a enfermidade do físico,
É saber-se pouco,
É sentir a grandeza aflitiva e misteriosa
Das coisas.

Fossem o físico e o poeta iguais às coisas,
Haveria mais silêncio no mundo.

Fossem o físico e o poeta superiores às coisas,
As árvores explicariam o físico
E cantariam o poeta.

XXIX

alguns homens
são vencidos
pelo whisky,
pela cachaça
ou pelo vinho;
outros
pelo tabaco
ou pelo ópio.

alguns
pelo sexo,
que rogam puro,
por um caralho
grosso ou qualquer
buraco úmido,
por um cadáver,
um cavalo
ou uma menininha
de cinco anos;

outros
por cristo,
maomé,
gandhi,
hitler,
castro,
napoleão

ou
qualquer outro
alucinado o suficiente.

há os que não
compreendem
que o poder
é um cão
dono dos homens.

uns caem
por orgulho,
por honra,
por bondade,
ou por virtude;

outros ainda
por amor,
por fé,
por ouro
ou por terra.

mais homens são
arruinados
por pequenos prazeres
que por grandes
padecimentos.

os heróis são sempre
feitos de merda, miséria
e morte,
ao passo que a fortuna
é uma rosa dourada,

pairando intacta,

sobre peste
e abismo.

XXVIII

era
sobre o outeiro
uma única árvore,
uma única e grossa árvore,
no poço do dia amarelo;

toda a beleza do mundo
era aquela árvore,
nem triste nem alegre,
uma árvore apenas,

sendo comigo,

exercendo o ofício
de ser verde,
de ser galhos estendidos
à relva
com poucas folhas douradas;
de ser vaso e distância,
silêncio e toda a relva,
meu rosto rubro
e peito aberto sendo,

de ser minha religião
cindida de humana laranja
estranha ao absoluto,

de ser uma casa
e todas as casas
igualmente;

de ser a ampla arboridade
que lhe cabe,
em sua ampla arboridade.

procurai o quanto quiserdes.
não há filosofia aqui;

o que há é a seiva sem ser nobre,
o tronco sem ser sacro,
a casca sem ser vil ou infame,

o universo sem ser puro ou grande

e eu, sereno,
sangrando para dentro.

XXVII

quando leio o que escrevi
há um ano atrás,
algumas vezes uma hora atrás,
tenho náuseas
e sinto vergonha.

tem dias em que não consigo dormir
por causa disso.

são montes e mais montes
de frases repugnantes,
metáforas abomináveis
e asneiras tacanhas,
tudo tão desnecessário
que não posso explicar
um assim excessivo excesso
senão pela incapacidade
bisonha de me por no meu lugar.

já escrevi poemas
tão profundos,
mas tão profundos,
que só freud
não os compreenderia
devidamente;

às vezes eu penso,

- e tanto que tenho
que parar de pensar
pra não desistir da única coisa
que faz com que eu
me sinta útil
nesse mundo
cagado por deus
e claramente enterrado
por algum sacana

- qual é o sentido de escrever um poema,

de ao invés de dizer que escurece
sugerir a violeta florescendo no céu,
de enfeitar com flores a fúria,
ou qualquer outra coisa
ainda pior.

talvez dizer as coisas seja
mais que suficiente.
tudo sem muito mel.

como brecht.

depronto
trocaria tudo que já escrevi
por qualquer unha daquele
alemão safado.

é;

daqui a um tempo,
é certo que este poema,
ou o que quer que isto seja,
será mais um que me fará ficar
acordado e me
sentindo um merda
durante as noites;

mais que certo,
com essa falta tenebrosa de estilo,
essa fealdade cruel
e essa agressividade grotesca.

pra ser franco,
mesmo agora ele não me parece uma boa idéia.

perdoai, contudo,
o abuso torpe dos vossos sentidos.

este aqui, se não é bom,
ao menos é único;

foi necessário.

XXVI

comentei
com dois amigos
que aquela era
uma bela mesa
prum bar tão pútrido.

um deles
concordou comigo,
era mesmo uma bela mesa,
mas -

foi aí que percebi meu
erro

- não era uma mesa perfeita,
porque era só uma mesa
transitória que não participava
verdadeiramente
da idéia eterna de mesa,
e embora se soubesse que tudo é uma idéia,
nada é uma idéia, e é tudo
que nem uma caverna.

ele andava lendo platão, e
segundo ele isso era platão.

o outro,
um niilista,
observou que
não acreditava em mesas.

esse levava a sério.
e era convicto.

resolvi
ficar quieto.

em cinco minutos era deus.

meteu o platão que
deus era uma idéia eterna,
afirmou pro outro,
com a voz do mel,
que eu acreditava em deus,
e concordou consigo por mim.

'não é?'

retórica, suponho.

por preguiça de falar,
tenho horror a controvérsias.

‘sim’,
respondi vagamente.

o niilista me olhou
com dois chifres de touro louco.

‘mas não muito’,
tive que completar,
e pedi pra jesus mais uma
dose.

(o nome do dono era jesus).

depois o niilista,
com o timbre da flauta,
me mandou admitir
que as coisas não existem.

‘é, nem tudo o que aparece existe’
mandei, com a mesma languidez.

dessa vez foi o platão que veio
com os chifres do touro louco.

‘e do que existe, muito pouco aparece’
tive que completar de novo,
e fiz mais uma prece:

uma dose, ou um derrame.

o que seguiu foi
uma longa discussão
sobre idéias eternas
de coisas que não existem.

eu já estava
mesmo de saco cheio
quando foram embora,
putos da vida e
um com o outro,

o niilista a pé
por uma rua que não era

e o platão,
julgando pelo aspecto,
com a primeira idéia
de uma moto;
mais ou menos
uma hora mais tarde
foi atropelado
pela idéia bêbada
de um taxista.

quando o outro soube
no dia seguinte,
‘não creio!’,
foi o que disse.
ambos passam bem.

o mundo é um troço incabível;

mas nem tanto.

Micro

De todas as soluções possíveis para o problema, ele nunca soube do problema.

XXV

todos os dias,
durante alguns minutos
eu escrevo;
o resto do tempo sou alegre.

penso pouco,
o suficiente para saber que
ainda há o melhor dos poemas
a ser escrito;
a mais infinita das imagens
vagando por aí, sozinha, ainda há;
alguma expressão do mundo
mais delicada
que uma amêndoa
ou qualquer outra coisa,
o que quer que isso signifique.

mas nunca acontece,
e nunca pode ser feito.

qualquer escritor,
por pior que seja,
sabe mais de
corso que corso.

sou frio e desordenado como um escritório
falido.
escuto vozes na maior parte do tempo
e não consigo dormir sem uma lâmpada acesa.

sempre quando me deito
minha cabeça soa e pulsa
com uma força tenebrosa,
e é como se eu tivesse levado
um imenso soco na orelha;
em seguida o quarto enche
de diabos cascudos,
vultos malignos,
nazistas loucos
e sombras das profundezas

acontece desde a infância, e
até hoje não sei o que possa ser isso;
só sei que me cago de medo toda vez,
e acordo tão podre todos os dias que
a mais medonha das ressacas
me é quase um bem absoluto.

mesmo assim, quase morto,
sou obrigado a enfrentar o dia,
misturado com uma centena de mercenários
e predadores e abutres e corvos,
porque tenho um emprego.

eis minha rotina;
sou o que chamam um comerciante.

meu colégio jesuíta,
com a estátua
de nossa senhora do carmo
olhando por nós sobre o pátio
bela e triste e imóvel
como um pássaro
crucificado,
os bentos micróbios
perto das árvores, jazendo
sob a neve do inverno,
os casacos azuis e as calças marinhas,
la salle e os capuchinhos
enfiados na carne do tempo como todos
e o diretor,
católico até metendo o pau nas criancinhas,
todos traíram-me, enfim.

nunca me disseram que um homem
sobrevive carneando o lixo.
era de esperar;
a verdade não é coisa que se diga.

entretanto, sou alegre.

não tenho outra escolha a não ser essa,
a de afundar um beijo à cara alheia;
de ficar agradecido pelo pouco de sol
que me foi dado pela parte boa do cosmo;
de sentir-me bem nesse pequeno
pedaço quente de terra que me sustenta,
e pensar que é mesmo uma sorte estar vivo,
apesar de tudo.

a alegria é uma espécie de lótus
que brota da merda.

XXIV

de tanto ouvir na missa das algas
o horror às areias,
pelo fervoroso conselho do atum insone
e pela influência intimidativa
do venerável bacalhau
atravessou-me o peito fraco
e a alma torta
a ameaçadora intuição
da fatalidade dos siris,
pavor indizível
da brancura medonha das pombas
e temeroso respeito
pela ameaçadora verdura dos cocos.

olvidado da criatura que era,

coisa extensa às trufas e
aos candelabros irmanada,

refugiei-me sob a fúria escabrosa
de uma derradeira onda,
mantive-me ignorante
do comprimento elástico das tíbias,
da vontade estóica dos calcanhares,
e pouco a pouco,

dia a dia,

feneceram lázaros
os sonhos antagônicos
de prata e oliva,
e as tristes inimizades
entre as caixas e as uvas.

serviu-me de filosofia
certa confidência de uma lula remota
e tem-me servido ainda,
quando me ocorre,
ora ou ora,
a estrutura peluda de um cavalo,
a fidelidade freqüente das nogueiras
ou um incêndio,
súbito proprietário de olmos e casas;

'o sol doira para todos,
mas não para todos'.