comentei
com dois amigos
que aquela era
uma bela mesa
prum bar tão pútrido.
um deles
concordou comigo,
era mesmo uma bela mesa,
mas -
foi aí que percebi meu
erro
- não era uma mesa perfeita,
porque era só uma mesa
transitória que não participava
verdadeiramente
da idéia eterna de mesa,
e embora se soubesse que tudo é uma idéia,
nada é uma idéia, e é tudo
que nem uma caverna.
ele andava lendo platão, e
segundo ele isso era platão.
o outro,
um niilista,
observou que
não acreditava em mesas.
esse levava a sério.
e era convicto.
resolvi
ficar quieto.
em cinco minutos era deus.
meteu o platão que
deus era uma idéia eterna,
afirmou pro outro,
com a voz do mel,
que eu acreditava em deus,
e concordou consigo por mim.
'não é?'
retórica, suponho.
por preguiça de falar,
tenho horror a controvérsias.
‘sim’,
respondi vagamente.
o niilista me olhou
com dois chifres de touro louco.
‘mas não muito’,
tive que completar,
e pedi pra jesus mais uma
dose.
(o nome do dono era jesus).
depois o niilista,
com o timbre da flauta,
me mandou admitir
que as coisas não existem.
‘é, nem tudo o que aparece existe’
mandei, com a mesma languidez.
dessa vez foi o platão que veio
com os chifres do touro louco.
‘e do que existe, muito pouco aparece’
tive que completar de novo,
e fiz mais uma prece:
uma dose, ou um derrame.
o que seguiu foi
uma longa discussão
sobre idéias eternas
de coisas que não existem.
eu já estava
mesmo de saco cheio
quando foram embora,
putos da vida e
um com o outro,
o niilista a pé
por uma rua que não era
e o platão,
julgando pelo aspecto,
com a primeira idéia
de uma moto;
mais ou menos
uma hora mais tarde
foi atropelado
pela idéia bêbada
de um taxista.
quando o outro soube
no dia seguinte,
‘não creio!’,
foi o que disse.
ambos passam bem.
o mundo é um troço incabível;
mas nem tanto.