XXIII

em verdade,
estou acostumado com o mundo
não ter sentido algum;

tão acostumado
que isso me traz uma
espécie de segurança profunda.

buscar sentido no mundo
é investigar os bolsos dos bois,

e investigar dos bois os bolsos é
perscrutar a justiça das pedras

e perscrutar das pedras a justiça é
distribuir gorjetas às lagostas

e distribuir gorjetas às lagostas é
distribuir lagostas às gorjetas.

tudo tão inútil quanto perseguir alguma coisa
que jamais pode ser alcançada
(e que precisamente por que tenha
tão esquisita propriedade tal coisa
me escapa o que possa vir a ser assim coisa).

se, porventura,
fosse descoberto qualquer
sentido no mundo,
certamente me seria essa
uma experiência das mais perturbadoras;

seria como dois e dois equivalesse a dois,
e a girafa parisse um camelo ao invés de outra girafa.

(que o mundo não faça sentido vá lá,
mas que faça sentido, ao menos)

tenho dito.

XXII

foi-se outro outono,
como a degustação
física de um tenébrio
ou a denominação triste
de uma tâmara,
sem os ritos preciosos
às humanas verdades
e sem a violência secreta
que o alcaçuz sereno
encerra.

é-me mais
outono hoje, outono ido,
que dantes quando fazia
outono.

no outono era-me mais
primavera.

a doçura das coisas
não me está nas coisas,
mas na ausência distante
das coisas;

não se me movem os santos
entre o florescimento das placas,
saudáveis entre as gentes,
do mesmo modo que
não são brancos os álamos
senão feridos ou defuntos
os álamos.

assim deságua minha vida,

turvo rio, estranho
e rosado,

esperando
o abrir-se de uma porta
que não há,

ao pé de um monte que inexiste.

XXI

dizem por aí que eu sou um bosta.
isso não é novidade pra mim.

houve vez que fui acusado de preguiça,
infidelidade, descrença, imundície, fúria...
confesso-vos, entra por uma orelha e sai por outra.

que acrescentem desatenção e indiferença.

quiseram banir-me por ser um pecador,
trataram de boicotar-me por falar demais,
e lavar-me por dançar no pus pelado e satisfeito.

olvidaram-se, sou perverso.

concordo que provavelmente tenho mais imaginação
pra pecados que o diabo em pessoa.
aos VII originais, já adicionei no mínimo uns trinta.

isso porque sou novo ainda.

ouvi também que meus poemas são de rir.
nesse caso em particular digo-vos, em verdade,
que infelizmente é impossível comer merda
e cagar a vaca.

mas, vede, hoje alguém disse que sou uma boa pessoa;

por deus, rogo-vos...

ao menos dessa medonha sordidez ainda sou inocente.

XX

o primeiro braço da hera trepou-me o peito cedo,
ofertando-me a vista estranha
da mão que se contorcia
por baixo,
justificando com topo verde sombria raiz,
impondo-se e rasgando-se à força bruta
até que nisso houvesse beleza.

tocou-me não o sangue branco do coração sagrado,
o vento puro da santa cruz,
as chagas negras da benta carne.

minha última prece foi aos nove anos.

foi-me o cristo
púrpura vida de tulipa ao contrário,
torcendo-se em botão,

até nada.

XIX

os vermes ainda garrindo a carne fria,
as anêmonas ainda douradas sob a luz dourada,
os toldos ainda desafinados com os lírios lilases,
ainda o inexorável labirinto do interior do féretro;
não fosse sempre, a filosofia obscura do cosmo
de dar sangue aos mortos nunca.

sacramentos estranhos, estranhos sonhos houverem.

XVIII

não posso dizer que
deus não fala comigo.

talvez não escute devidamente,
por causa da tosse e dos maus pulmões.

não posso dizer que
deus fala comigo, tampouco.
talvez não fale.

não me preocupo com isso.
por certo deus não falava com beethoven,
e ainda assim beethoven foi um bom artista.

pretendo ser um bom artista também,
e essa é minha prioridade, por ora.
em segundo lugar vem a morte;

isso porque para mim é tão fácil escrever
que tenho menos preguiça de escrever que de morrer.
se algum dia formular algumas frases
me der algum trabalho,
certamente que revejo minhas prioridades.

enquanto isso fico aqui deitado,
olhando para as paredes
como se olhasse para qualquer outra coisa,
sem assombro ou sentimentos elevados,
afinal, paredes são paredes,
penso uma ou duas vezes que devo ser um gênio
ou algo parecido,

ponho no papel esta frase,
mais esta,

e acabo.

XVII

quiçá ainda haja dia
para o último bonde cruzar a avenida,
lilás;
novembro dormiu como uma revolução
na maquinaria de uma cereja amarela,
e ainda são as mesmas árvores
guarnecendo os vestidos
e as mesmas flores enfeitando as chuvas
e a mesma lua concentrando os olhos;

o tempo deixa estar as coisas do mundo
o quanto é preciso estarem as coisas no mundo;

são tão líquidos os rosários negros
nas mãos das senhoras
quanto o sangue no peito do condenado,
e há tanta importância nisso
quanto agricultura no estômago
do mendigo.

ah!, rosa,
és um punho de água na cara
da água misturando-se,
sol e destino,
pétala e maldição,
dama e tronco,

dar-te a quem somos?

as ondas mornas de novembro
e o riso triste de julho,
o pano branco sobre o fim de julieta,
as dificuldades das alcaparras
e os desesperos das cadeiras,
o eterno romance de mim para comigo
sem o congresso
e sem o voto dos fungos,

um fenômeno particular entre
mil particularidades possíveis,

vêm as algas e as terras,
a caixa mórbida de um homem doente,
vêm o pião rodando no escuro,
as ameixas doces
e a clausura verde das uvas
aproximando-se,

o universo
um buraco em que o universo escorre,
sonhando-se lúcido,
amando-se triste,

movendo-se preso.

XVI

poderia
atravessar a janela
como uma pedra,
consumir, à maneira de um incêndio,
um excesso
qualquer de gás,
pender como um fruto de alguma árvore
ou mesmo simplesmente
meter uma bala na escravidão
do crânio.

contudo,
nunca decido-me adequadamente;

seria injusto com o diabo
escolher o menor dos sofrimentos,
e com deus escolher o maior.

?

é um problema filosófico
grande, este,
levando em conta,
pelo estado do mundo,
que deus deve estar bastante puto
desde que andaram pregando
ele naquela cruz,
e talvez não esteja lá muito inclinado
a perdoar mais uma cagada humana.

é estúpido como uma coisa
que aconteceu há tanto tempo
tem um efeito tão cabal
sobre minhas averiguações.

(talvez isto me assombrasse de alguma maneira,
não houvessem coisas ainda mais antigas e notáveis
com efeitos mais cabais ainda
sobre minhas averiguações,
como a aparição
de hidrogênio no cosmo,
ou o surgimento
de um chinês risonho.)

quem sabe me venha uma iluminação
num dia desses e esclareça tudo,
algum vislumbre interessante
eu numa rua, mijando atrás do lixo,
na goela fria da madrugada,
ou mesmo um sonho repentino
com a engenharia estranha
de alguma forca.

mas não tenho tanta pressa,
enquanto houver whisky e crivo.

vocês compreendem.

XV

hoje estou alegre
com a alegria de um túmulo;

à maneira dos ataúdes
é minha vida
distinta das outras vidas
e dos assuntos dos vivos
das vistas estranhas
e delicadas amizades
que dedicam os vivos
a outros vivos.

hoje estou triste
com a tristeza dos ovos;

separar-me de tudo que floresce
não saber-me vivo nem morto,
como uma fábula fria
sobre um imaginário cavalo.

à maneira das gemas
é minha morte

que me importa?

olha-me um e diz
‘eis uma porta’,
olha-me outro e pensa
‘que erva infeliz’

e isso se dá
sem que eu saiba de nada.

sou por inteiro
uma inconsciência
e
uma ambígüa relação

como
a flor,
que é o deleite do poeta
e o abismo do suicida.

XIV

'o espírito de vespa
às formigas famintas’,
assim fui sentenciado,
a morte de minha fome
pela fome de outros
o fim do meu espírito
pela carcaça alheia
nua e faminta de espírito.

servir-me-ão nu de flamas
e crepitações,
aos carrascos um equivalente,
e dirão a todos que ameaço-lhes
a fazenda e a polícia,
que corto-lhes os nós que
sustentam a casa,
que torno-lhes o convívio
com o universo impossível
à guisa das torneiras
no interior das nuvens.

servir-me-ão em uma bacia
de barro,
destituído de dignidades e azaléias,
acompanhado de uma corcunda
infiel e de um único
e leal tamarindo,
para que eu possa na derradeira hora
saber a verdade de estar-se ali,
úmido manjar ao estômago de sociedade destinado,

que
fui uma trapaça aos trapaceiros,
que roubei meu próprio ouro
ao ladrão manco
que me escapava
pela cortina do quarto,
que restituí ao mundo o que
ao mundo era devido
e que fui bom e manso
para com todos,
quando por lei era-me imposto
um maligno comportamento,

para fazer claro
com a clareza fugaz
de uma anchova prateada
brigando contra a carne negra da noite

que eu estava certo,
e que fui vencido.